O parágrafo mais intenso

Os olhos dela brilhavam raios de lua quando lia histórias de menininhas mágicas e mulheres irrepreensíveis amadas com furor e devoção. Ambicionava ela mesma estar nas páginas de um livro, ilustrada em tipos itálicos ou em negrito – iluminada em preto e branco, mas proporcionando imaginações multicoloridas – como as personagens que tanto lia e admirava. Queria isso, porém receava, pois a imortalidade talvez lhe custasse abdicar de outros prazeres, prazeres mundanos, mas que lhe pareciam tão inofensivos. Quando não estava entre os livros, estava brincando com seu sexo, e às vezes, com outros sexos – nunca de maneira vulgar – lhe encantava tanto a lenta sedução, inclusive, a lenta sedução de si mesma. Era metade índia e possuía uma inegável beleza exuberante. Gostava de andar nua em casa. Gostava de passear na chuva. Gostava de beijar. Achava que todas as pessoas do mundo seriam felizes se pudessem andar nuas quando quisessem, se pudessem sair na chuva sem medo de gripe e se pudessem beijar sem culpa ou compromisso a quem desejassem beijar, fosse curiosidade ou fosse por simples brincadeira. Na barriga macia e formosa, exibia um piercing de diamante sete quilates, que chacoalhava enquanto ela dançava suas danças fulgurantes. Havia ganhado a jóia de um admirador, um dos muito que tinha. Ela adorava ganhar presentes: recebia-os sempre de bom grado fosse de quem fosse; fosse uma jóia; fosse um poema decassílabo dolorido; fosse o graveto de uma árvore morta. E ela gostava de ser assim, e se não se tornasse uma heroína de um romance com 372 páginas, ficaria satisfeita em ser o parágrafo mais intenso em um conto de frivolidades.

Ele, ao contrário, almejava o nome em jornais econômicos e um quadro na bolsa de valores. Era um ser burocrático e extremamente comprometido com seus números e planilhas. Toda sua carreira profissional fora dedicado ao sucesso absoluto, e as promoções vieram aos píncaros devido sua inabalável capacidade de enxergar e compreender novos negócios. Estava há um passo do seu grande objetivo: a presidência regional da multinacional de onde trabalhava há quase uma década. A cada dois anos, a empresa estrangeira promovia um rodízio na presidência, e quando o promovido fazia um bom trabalho, partia para uma gloriosa e afortunada carreira no exterior. A pretensão dele era alcançar o máximo posto antes dos 40 anos. Vira a promoção passar perto aos 36 e mais perto ainda aos 38. Agora, aos 39 pensou fazer tudo que lhe exigisse estar preparado para o cargo, que em sua visão, lhe era destinado. Prosaico e reservado – casara-se com a primeira namorada e tivera dois filhos também brancos e lindos como eles – passou a estudar sigilosamante o currículo e a investigar a vida pessoal de cada um dos presidentes anteriores. Após analisar por semanas a fio todos os perfis, verificou que os promovidos tinham como premissa formação acadêmica e cursos equivalentes aos seus, fato que o lhe encheu de satisfação. Estranhamente, o que o deixou desconcertado, foi notar que o desempenho dos promovidos a presidente (exprimido em gráficos que ele tanto sabia ler) eram sempre inferiores ao desempenho grandioso que ele possuía. Entre angústias, não conseguiu compreender os critérios que o levariam à promoção. Passou então a dar ênfase a análise da vida pessoal e fez um levantamento dos bens de cada um, tentou buscar um diferencial, uma razão qualquer que fosse. Tinham todos casas grandiosas, tinham todos carros importados, tinham todos uma família bonita e estruturada. Todos eram como ele. E a conclusão, um tanto absurda que chegou, o deixou estarrecido e destruiu a sua mais inabalável convicção: a única coisa que todos escolhidos possuíam, sem exceção, e que ele nunca pensara em ter na sua vida direita, era uma amante. Havia jurado que faria qualquer coisa para alcançar o cargo, e mesmo agindo contra seus próprios dogmas, tomou por si só a decisão que mudaria sua vida para sempre, e que o tornaria, enfim, presidente regional: teria ele mesmo a sua própria amante.

Ela, a moça mais bonita da cidade a beira de um rio, junto com algumas outras meninas, era constantemente chamada para recepcionar empresários em grandes eventos e convenções no maior hotel da cidade. Sempre simpática e acolhedora, flertava aos montes, com todos os homens e com algumas mulheres, com todos ao mesmo tempo, e, após o expediente, se divertia com um ou outro ao lhes propor conversas intrigantes sobre as coisas do mundo. Os homens, sempre tão gentis para uma mulher bonita, lhe pagavam bebidas, lhe cobriam de presentes, lhe propunham amizade, lhe propunham sacanagem. Vezenquando, muito raramente, um ou outro destes que iam e vinham lhe roubava um beijo. Uma vez um lhe roubou uma noite. Mas foi só uma vez. Só para saber como seria se todas as noites fossem assim.

A rotina de um cargo de diretoria numa empresa como a dele, exigia reuniões pelos quatro cantos do país. Nessas viagens tão facilitadoras, até então, ele era conhecido pela fidelidade obstinada e pela organização didática com que cuidava das suas apresentações e dos objetos pessoais. Palestrava, altivo, quando precisava falar dos números, e quando falava dos números falava com tanta propriedade que todos pareciam lhe querer ouvir. De personalidade introvertida, recusava noitadas, não discutia futebol e não se distraia com o álcool. Muito menos com mulheres. Era sempre o primeiro a se recolher, e, o primeiro à acordar para inofensivos passeios matinais. Nas cidades à beira da praia gostava de despertar com o sol e um caminhar pela areia, onde tinha como companhia apenas sua sombra - e uma ou outra pessoa que seguia ritual semelhante - e as conchinhas que o mar despejava na praia pela manhã. Mas adorava quando chovia e tinha a praia inteira, e a chuva, só para ele. Quando soube da convenção na cidade à beira de um rio, ficou imaginando se lá haveria conchinhas.

E foi assim que se conheceram.

Ela, que sempre brincava de sedução encontrou nele um olhar esquisito. No corpo de um homem maduro, um olhar de passarinho, fugídio e ansioso, que ela quis logo cuidar. Ele, que nunca havia reparado num olhar de mulher, percebeu ao encontrar o olhar dela, que ela ria com os olhos. Ria rios. E ainda mais, lhe pareceu também a menina-mulher mais linda e encantadora deste e de todos os universos conhecidos e desconhecidos. Eram os olhos que ele nunca mais queria deixar de olhar. Teria o destino lhe incutido o desejo de procurar uma amante no exato momento em que ele encontrou a mais bela e impressionante mulher de todo o mundo? Teriam sido eles que escolheram amar? Ou o amor que os teria escolhido?

Ele foi o último palestrante daquele dia da convenção. Ela o viu falar, e ficou admirada com a maneira que ele conduzia bem as palavras, apesar de só falar de números distantes, ela compreendeu tudo o que ele quis dizer. Não tinha uma voz pungente, era algo bossa-nova, mas falava com convicção e com tamanha propriedade, que todos seus argumentos se tornavam simples e irrefutáveis. Naquele instante em que ele se diferenciava de todos os mortais, ela estava absolutamente encantada: se ele fosse um vendedor, ela teria comprado qualquer produto dele, mesmo que ela nunca o usasse; se ele fosse um cientista, ela se ofereceria como cobaia de uma experiência, na qual injetaria perigosas toxinas na corrente sanguínea; se ele fosse um mágico, ofereceria sua cabeça para que ele apoiasse uma maçã, alvo de um tiro de carabina; Ele sendo homem, ela lhe daria sua alma, se ele pedisse – mas só se ele pedisse. Todos permaneceram calados enquanto falou e o aplaudiram de pé, quando encerrou a apresentação. Recebeu muitos comprimentos, inclusive o dela, sorrateiro, que não disse nada, apenas um pequeno sorriso e deixou para ele um bilhetinho com letrinhas apertadas, um tanto oferecido é verdade, que ele leu disfarçadamente, entre chacoalhar de mãos e tapinhas nas costas.

Era noite quando se encontraram no hall do hotel. Ele disse apenas "oi", e ela respondeu apenas "oi" e sorriam-se do mesmo sorriso, como se o sorriso fosse uma longa palavra repleta de sílabas. "Queres conhecer a cidade?", ela disse com voz de vinho tinto. Foi que ele olhou para fora, através dos vidros da fachada do hotel, e percebeu as primeiras gotas caindo do céu. "Está chovendo" ele constatou. E andaram em uníssono até a porta do hotel. Ele, que não se importava com a chuva falou: "Vamos na chuva". Ela, que adorava a chuva respondeu: "Se eu puder segurar a sua mão".

Desceram os sete degraus do hotel, e se perderam em palavras pela chuva, pela noite, pelas estrelas, pelo rio. E tudo que viveram e viram naquele dia parecia encantamento.

Ela, pela primeira vez na vida sentiu-se a personagem do livro que sempre quis. Ele procurava uma amante e encontrou uma razão para viver.


( rascunhos )

Um ano depois, estavam num quarto de hotel, numa cidade a beira-mar. Ela estava na cama, com as costas na parede e as pernas cruzadas, perdida em seus próprios pensamentos. Ela estava com problemas, maiores do que podia suportar. Ele também passava por um período difícil. Ele pensava, em sua lógica cartesiana ter arranjado a solução para tudo, tanto para ele quanto para ela – falava como um louco sobre o que havia acontecido (tão diferente da palestra no dia em que se conheceram) – e esse era o motivo desta viagem tão repentina, tão sem pé nem cabeça, falava atropelando as palavras, falava com dor, falava desespero e esperança ao mesmo tempo: a promoção não veio, mas não se importava mais, seu plano de vida havia acabado há doze meses, quando a conhecera naquela cidade a beira do rio. Com ela, ele aprendera a olhar a copa das árvores, aprendera o nome das flores, ele que nunca havia amado realmente, aprendera a amar. Seu mundo de números e objetivos sociais era uma planilha, esposa e os filhos mais um detalhe técnico, onde sentimentos fúteis como sonhos e alegria não lhe eram permitido. Depois dela, ah, depois dela, a sua vida era outra. Por isso, inadvertidamente pediu demissão da multinacional. Por isso inadvertidamente abandonou a esposa, abandonou os filhos, deixando-os com todos os bens. Por isso, inadvertidamente ele estava ali, para ficar com ela. Para ficar com ela. O resto ficava para trás, essa foi a única maneira que ele havia encontrado para ajudá-la, ela que era a mulher da sua vida.

(Ele entendia o amor como devoção. Ela, como diversão.)

Era o que ela mais temia que ele fizesse. Não se achava digna disso. Não sabia o que dizer. Ficou em silêncio, o silêncio dos momentos difíceis. Abaixou a cabeça e poliu o diamante do piercing, parecia tão concentrada. Ele falou com desespero do rumo que tinha tomado a sua vida, e ela olhava apenas para seu próprio umbigo. Ele sentiu-se um tolo. Disse alto: "Vou andar na praia". E saiu do quarto batendo a porta. Desta vez, desta vez não choveu.

Ela, que preservava tantos sentimentos dos outros, o havia magoado da maneira mais vil e insensível, o havia magoado com a indiferença. Poderia ter gritado, batido, esperneado, poderia ter feito qualquer coisa. Poderia tê-lo matado. Mas não fez nada. Apenas deixou. Pensou em remediar, talvez conversassem depois, e achassem uma outra solução menos drástica para continuarem existindo, já que tudo entre eles era tão bom. Não seria justo mudar os rumos de uma história tão bonita por causa de problemas que eram só dela. Não sabia como dizê-lo, naquele momento queria recompensá-lo pelas alegrias imensuráveis e por tantas dores que haviam passado juntos ao longo daquele ano.

Quando ele voltou mais calmo, horas depois, abriu a porta lentamente, pensou em conversar, pensou talvez que ele estivesse errado, trazendo seus conceitos de solução, impondo um destino que ele nem havia perguntado se era o que ela queria. E viu o apartamento, cheio de velas vermelhas que exalavam essência de canela. Ficou feliz em seu íntimo, reconheceu ali, naquele cuidado, que ainda havia um "eles". Caminhou lento até o quarto iluminado apenas pelas chamas. Foi que ele viu, ela nua, ajoelhada na cama de costas para ele, com as ancas empinadas e exuberantes, o cabelo negro escorrendo em cascata até o cóccix. Foi que ele viu, o quanto ela era bonita e bem formada, e o quanto mais ela ficava, com a pele cor de pecado iluminada pela dança do fogo. Foi que ele viu, mãos brancas de unhas vermelhas lhe surgirem na cintura, uma de cada lado, contrastando com a pele morena. Foi que ele viu, uma loira na cama – de mãos brancas de unhas vermelhas – , também nua, oferecendo o corpo e a boca para ela beijar. Não acreditando nos seus próprios olhos, aproximou-se ainda mais. Ela lhe sorriu, orgulhosa da sua conquista, passava a mão morena na pele de cera da turista estrangeira mais bonita hospedada no hotel, passava a mão pelo pescoço pelos seios, pelo ventre da loira, passava a mão pelo universo macio e perolado daquela pele tão diferente, ela o fazia tão delicado como se polindo um troféu. Depois passou a arranha-la com as unhas, formando riscos paralelos cor de rosa na pele tão sensível, riscou seios, coxas, braços e costela. Assim, ela quis se desculpar, dando-lhes uma mulher, uma desconhecida, para que vivessem uma noite mundana, a três. Ela sorriu para ele, com a fagueirice costumeira, e segurou a loira pelo cabelo (como ele costumava a segurar, ela fez questão de mostrá-lo como ela gostava quando ele fazia isso ) e meteu a língua na boca da galega, boca pintada de vermelho. Ela se inclinou e os seios morenos e voluptuosos caíram por sobre os seios macios de bicos róseos da gringa, as duas arfavam, se enroscavam e se lambiam as bocas, se lambiam as línguas. Entre os beijos, ela se empinava e rebolava involuntariamente, com as unhas vermelhas cravadas lhe fazendo rasuras na carne macia da bunda. Ela chamava a loira de puta quando lhe lambia a orelha, umedecendo com a saliva para depois secar com hálito quente, e quando fazia isso a estrangeira se contorcia sorridente, gritando e dizendo coisas que nenhum dos dois entendia. Elas se metiam a língua na boca e os dedos se melavam no sexo uma da outra, se esfregavam e gemiam. Ele vendo tudo aquilo corou, e sentiu nojo. Nunca havia visto uma mulher beijar outra na boca. Veio o embrulho no estômago, e foi para o banheiro vomitar. Ela foi atrás dele, não sem antes gozar um gozo urgente, e botar a galega para fora do quarto com gestos - a estrangeira ainda extasiada pela imensidão do gozo intenso que havia gozado, resistia, sem entender muito o que estava acontecendo, tremendo e trançando as pernas, sorrindo e querendo mais beijos de boca, colocou até calça pelo avesso.

Quando ela voltou, não o encontrou no banheiro. O encontrou na sacada que proporcionava uma visão esplendorosa do mar e da Lua. Ele estava nu. Parecia calmo, satisfeito, pois havia uma vez na vida encontrado uma felicidade inebriante que nunca sequer havia cortejado.

- Não morra por minha causa – ela disse – não vale a pena.

- Eu sei.

E ele lançou-se ao ar, não porque desejava a morte. Saltou como um anjo, porque pensava em voar, acreditava que o amor lhe daria asas. Mas, não deu.

Encontrou o frio chão de concreto.

Agora, coberto de sangue.