Andorra

Era uma dessas meninazinhas, tão pálida e tão bem formada quanto qualquer homem desejaria que fosse, uma dessas, cujo o nome ninguém lembra e cuja a essência é dispensável. Só o que importava daquela moça que se estendia como a primavera pelos lençóis através da cama, era a nudez juvenil com frescor de flores silvestres. Era mais uma aluna que teria que aprovar, não pelo favor do sexo, mas para se livrar do engodo. Torcia para que não fosse daquelas sonhadoras que lhe insistiam em histórias tolas de amor ou de fidelidade eterna. A sedução era uma chatice inenarrável. Agachado e sem roupas num dos cantos do quarto, ele segurava um cigarro de maconha aceso entre os dedos médio e indicador, e a observava silencioso. Tentava se lembrar em que momento a vida havia perdido a magia e se tornara um tédio. Uma enorme estrada reta e plana de paisagem semelhante e sem fim. Nenhuma descoberta lhe fascinava mais, nenhuma nova tecnologia, nenhum pensamento ou pensador, nenhuma nova mulher lhe trazia o encanto de outrora. Tudo era repetição num formato diferente. Na vida acadêmica, as mesmas aulas, as mesmas palavras, as mesmas reações, as mesmas indagações e as mesmas indignações. As bocas mudavam, os corpos mudavam, os nomes mudavam, as classes mudavam, mas tudo era sempre o mesmo. Kierkegaard era sempre o mesmo. Heidegger era sempre o mesmo. Derrida era sempre o mesmo. Foucault, Nietzsche, Platão. Eram sempre os mesmos e o que disseram continuava sempre o mesmo. Nada de novo. O mundo sempre era o mesmo mundo com as mesmas necessidades, com os mesmos tabus e as mesmas distâncias; era o mesmo mundo com as mesmas guerras, as mesmas comédias e as mesmas tragédias. A mudança só havia nele: seu corpo exausto mantinha o tônus e a beleza de antes, mas agora era grisalho e os músculos lhe doiam. Também lhe doía a alma. Gostava da leveza que o cigarro da erva lhe causava, fazia parte do ritual. A foda, o gozo, a ganja, o topor. Era uma tentativa débil de estender a sensação de prazer. Só fumava quando fodia. E fodia uma foda de um gozo só. Tentava manter artificialmente interessante toda aquela encenação que lhe habituara desinteressante. Com os pensamentos entorpecidos, buscava resquícios do encantamento que outrora lhe iluminava a vida. Mas não via nada, só um enorme vazio, que ecoava retumbante e rodava em seus pensamentos. O sexo havia terminado. Era hora de despertar a garota, tirá-la da sua cama. Dar um pouco de dinheiro para o táxi. Fechar a porta. Talvez, antes disso tudo, brincar, apenas pelo intenso interesse na anatomia feminina, sodomiza-la com os dedos enquanto ela permanecesse assim, tão deitada, tão nua e indefesa. Adorava fazer isso, meter-lhes o dedo e sentir a carne contrair. Adorava tomar de assalto o corpo das fêmeas. Fêmeas. As mulheres haviam perdido a singularidade. Eram só plurais. E ele também, era mais um, para encher-lhes a alma de ego. Mal sabiam as alunas ricas, bonitas e jovens que se ofereciam a ele e que se esforçavam tanto em jogos eróticos, que ele deitaria com uma cadela, ou com uma prostituta fétida de beira de cais. Tanto fazia, desde que houvesse uma buceta no corpo.

– Você só quer chamar a atenção – disse-lhe, Andorra – Quando te conheci, era abstêmio. Por que agora bebe deste jeito?

– Bebo para morrer – respondeu o professor, rindo embriagado enquanto lhe escorria a cachaça pelos beiços. E ainda citou Sartre propondo um brinde: “Por mim, creio que estamos mortos há muito tempo: morremos no exacto momento em que deixamos de ser úteis.”

– É como eu disse, só quer chamar a atenção. Se quisesse morrer, metia um balaço no peito.

– Não. Faz muita sujeira e dá trabalho. Além do mais Maiakovsky já fez isso por sua Lila, e como dizia ele: “melhor morrer de vodka do que de tédio”. E armas-de-fogo tornam a morte irreversível.

–A morte é sempre irreversível.

– Nem sempre. Há muitas maneiras de morrer. "O homem morre a primeira vez quando perde o entusiasmo" diria Balzac.

– Sei. Que tal cicuta?

– Morrer como o próprio Sócrates? Seria uma honra para um professor de filosofia. Vou anotar a sugestão.

Amava Andorra. Mulher de mil palavras, mil verdades e mil dogmas estridentes. Era única, sedutora, encantadora. Era voluptuosa, inteligente. Sabia várias línguas, conhecia todos os autores. Falava livros. Sonhava filmes.Vivia poemas. Uma mulher arrebatadora que nunca passava despercebida entre os homens. Uma mulher assustadora, que expunha as fraquezas masculinas com um riso sádico. Ela gargalhava, se divertia, enquanto os homens se avolumavam e gaguejavam a seus pés, vislumbrados diante da formosura de suas curvas. Ela gozava com o embaraço que causava aos outros. Andorra tinha o nome de um país, um minúsculo país na Europa, espremido entre a república francesa e o reinado espanhol. Mas Andorra não tinha nada de minúscula, era enorme, gigantesca em seus vinte e poucos anos. Possuía a França com o braço direito, a Espanha com o esquerdo, possuía o mundo inteiro com as coxas e em suas tatuagens cheia de significados que só podiam ser vistas diante da sua inteira nudez. O professor a amava, por que quando tomava o corpo de Andorra, também tomava sua alma. E quando a tinha, tinha o mundo inteiro. Andorra também o amava pois ele era corajoso. Ele não tinha medo da morte, nem da vida. E não tinha medo dela.

Estavam nus na cama. Ele a acariciava no rosto.

– Foge comigo.

– Você sabe que eu não posso. Vai ser pior para todo mundo. Vai ser pior para mim. Com você eu não tenho o direito de errar. Queria que fosse diferente, queria ter te encontrado antes, antes das tuas e das minhas amarras.

– Merecemos uma vida juntos.

– Quem sabe na próxima vida, professor? Nesta, eu sou a esposa do teu filho.

Era tarde demais. Tarde demais.