Amava-a tanto, mas tanto, que não sabia onde começava e nem onde terminava sua própria existência. Era um desses amores doídos e enraizados; um desses amores que não tinham começo e nem perspectiva de fim, apenas era. E era absoluto, absoluto como um inchaço permanente que lhe tomava o peito e lhe destituía a razão; absoluto, como o gosto amargo do álcool depurado na boca pela manhã do dia seguinte; absoluto como um vício, cuja ausência faria sua vida perder o sentido e a essência lhe tomava sensatez; absoluto, como uma condenação perpétua e irrevogável. Era absoluto, como a falta de escolha. Em outros tempos, outros dias, andava de peito erguido, altivo e orgulhoso, enquanto enlaçava com força os dedos da mão dela – a mais bela e formosa dos seres viventes – nos táxis ou nas ruas sem testemunha; era o mais feliz dos homens quando a possuía sem cerimônia em locais inadequados; era o mais feliz dos homens quando lhe roubava carícias impróprias e súplicas de eternidade; ou quando ouvia da boca dela as declarações mais tolas e as mais impossíveis promessas de fidelidade e amor, nas quais ele acreditava com furor como se estive ouvindo a voz sussurrada do próprio Deus materializado. Daquele tempo guardava fragmentos, cheiros, lembranças, restos de louça e fios de cabelo. Dos novos tempos... dos novos tempos, ele carregava o embaraço, sentia-se um débil, um ínfimo, um nada. Sentia-se assim, porque não tinha forças para renunciar a esse amor que lhe tomava o corpo e o espírito. Não falava mais dela para ninguém; o seu imenso amor, o seu enorme e incontrolável amor era um segredo, o segredo pelo qual ele andava cabisbaixo e despedaçado; era um segredo pela qual sua órbita ocular pendia sempre para baixo, fitando hipnotizado o chão. Era assim, pois Luiza um dia decidiu o amar de outra maneira, da maneira dela, de uma maneira que ele não compreendia e que a permitia amar dois, três ou quatro alternadamente. "Cada um de um jeito diferente" ela dizia sem culpa, criando um séqüito de homens a preencher-lhes com lambidas e membros eretos o corpo e o ego, banhados à saliva e gozo. "Sou assim", justificava.
- Então me liberte.
- Como?
- Diz que não me ama mais, por favor.
Sempre que ele pedia, ela respondia com um profundo silêncio e depois soltava: "Preferia que me odiasse, para não te ver machucado". "Eu preferia te odiar", ele retrucava. Luiza também não conseguia abrir mão daquele amor imenso, aquele amor shakespeariano, um amor pleno de filme, um amor pelo qual as mocinhas suspiram na escuridão do cinema. Um amor único e inestimável, que lhe doia a alma porque não sabia o que fazer dele.
E ele passava os dias a esperar que ela o chamasse, de quando em quando, entre uns amores e outros. E se amavam assim, na tristeza e na incoerência, porque não podiam ficar um sem o outro. E porque achavam bonito doer e morrer de amor.