<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545</id><updated>2012-02-15T22:26:44.495-08:00</updated><title type='text'>Do Amor, Laico Impropério</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>25</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-1507797624602377358</id><published>2009-12-28T09:15:00.000-08:00</published><updated>2009-12-28T09:19:41.991-08:00</updated><title type='text'>O parágrafo mais intenso</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Os olhos dela brilhavam raios de lua quando lia histórias de menininhas mágicas e mulheres irrepreensíveis amadas com furor e devoção. Ambicionava ela mesma estar nas páginas de um livro, ilustrada em tipos itálicos ou em negrito – iluminada em preto e branco, mas proporcionando imaginações multicoloridas – como as personagens que tanto lia e admirava. Queria isso, porém receava, pois a imortalidade talvez lhe custasse abdicar de outros prazeres, prazeres mundanos, mas que lhe pareciam tão inofensivos. Quando não estava entre os livros, estava brincando com seu sexo, e às vezes, com outros sexos – nunca de maneira vulgar – lhe encantava tanto a lenta sedução, inclusive, a lenta sedução de si mesma. Era metade índia e possuía uma inegável beleza exuberante. Gostava de andar nua em casa. Gostava de passear na chuva. Gostava de beijar. Achava que todas as pessoas do mundo seriam felizes se pudessem andar nuas quando quisessem, se pudessem sair na chuva sem medo de gripe e se pudessem beijar sem culpa ou compromisso a quem desejassem beijar, fosse curiosidade ou fosse por simples brincadeira. Na barriga macia e formosa, exibia um piercing de diamante sete quilates, que chacoalhava enquanto ela dançava suas danças fulgurantes. Havia ganhado a jóia de um admirador, um dos muito que tinha. Ela adorava ganhar presentes: recebia-os sempre de bom grado fosse de quem fosse; fosse uma jóia; fosse um poema decassílabo dolorido; fosse o graveto de uma árvore morta. E ela gostava de ser assim, e se não se tornasse uma heroína de um romance com 372 páginas, ficaria satisfeita em ser o parágrafo mais intenso em um conto de frivolidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, ao contrário, almejava o nome em jornais econômicos e um quadro na bolsa de valores. Era um ser burocrático e extremamente comprometido com seus números e planilhas. Toda sua carreira profissional fora dedicado ao sucesso absoluto, e as promoções vieram aos píncaros devido sua inabalável capacidade de enxergar e compreender novos negócios. Estava há um passo do seu grande objetivo: a presidência regional da multinacional de onde trabalhava há quase uma década. A cada dois anos, a empresa estrangeira promovia um rodízio na presidência, e quando o promovido fazia um bom trabalho, partia para uma gloriosa e afortunada carreira no exterior. A pretensão dele era alcançar o máximo posto antes dos 40 anos. Vira a promoção passar perto aos 36 e mais perto ainda aos 38. Agora, aos 39 pensou fazer tudo que lhe exigisse estar preparado para o cargo, que em sua visão, lhe era destinado. Prosaico e reservado – casara-se com a primeira namorada e tivera dois filhos também brancos e lindos como eles – passou a estudar sigilosamante o currículo e a investigar a vida pessoal de cada um dos presidentes anteriores. Após analisar por semanas a fio todos os perfis, verificou que os promovidos tinham como premissa formação acadêmica e cursos equivalentes aos seus, fato que o lhe encheu de satisfação. Estranhamente, o que o deixou desconcertado, foi notar que o desempenho dos promovidos a presidente (exprimido em gráficos que ele tanto sabia ler) eram sempre inferiores ao desempenho grandioso que ele possuía. Entre angústias, não conseguiu compreender os critérios que o levariam à promoção. Passou então a dar ênfase a análise da vida pessoal e fez um levantamento dos bens de cada um, tentou buscar um diferencial, uma razão qualquer que fosse. Tinham todos casas grandiosas, tinham todos carros importados, tinham todos uma família bonita e estruturada. Todos eram como ele. E a conclusão, um tanto absurda que chegou, o deixou estarrecido e destruiu a sua mais inabalável convicção: a única coisa que todos escolhidos possuíam, sem exceção, e que ele nunca pensara em ter na sua vida direita, era uma amante. Havia jurado que faria qualquer coisa para alcançar o cargo, e mesmo agindo contra seus próprios dogmas, tomou por si só a decisão que mudaria sua vida para sempre, e que o tornaria, enfim, presidente regional: teria ele mesmo a sua própria amante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, a moça mais bonita da cidade a beira de um rio, junto com algumas outras meninas, era constantemente chamada para recepcionar empresários em grandes eventos e convenções no maior hotel da cidade. Sempre simpática e acolhedora, flertava aos montes, com todos os homens e com algumas mulheres, com todos ao mesmo tempo, e, após o expediente, se divertia com um ou outro ao lhes propor conversas intrigantes sobre as coisas do mundo. Os homens, sempre tão gentis para uma mulher bonita, lhe pagavam bebidas, lhe cobriam de presentes, lhe propunham amizade, lhe propunham sacanagem. Vezenquando, muito raramente, um ou outro destes que iam e vinham lhe roubava um beijo. Uma vez um lhe roubou uma noite. Mas foi só uma vez. Só para saber como seria se todas as noites fossem assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rotina de um cargo de diretoria numa empresa como a dele, exigia reuniões pelos quatro cantos do país. Nessas viagens tão facilitadoras, até então, ele era conhecido pela fidelidade obstinada e pela organização didática com que cuidava das suas apresentações e dos objetos pessoais. Palestrava, altivo, quando precisava falar dos números, e quando falava dos números falava com tanta propriedade que todos pareciam lhe querer ouvir. De personalidade introvertida, recusava noitadas, não discutia futebol e não se distraia com o álcool. Muito menos com mulheres. Era sempre o primeiro a se recolher, e, o primeiro à acordar para inofensivos passeios matinais. Nas cidades à beira da praia gostava de despertar com o sol e um caminhar pela areia, onde tinha como companhia apenas sua sombra - e uma ou outra pessoa que seguia ritual semelhante - e as conchinhas que o mar despejava na praia pela manhã. Mas adorava quando chovia e tinha a praia inteira, e a chuva, só para ele. Quando soube da convenção na cidade à beira de um rio, ficou imaginando se lá haveria conchinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que se conheceram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, que sempre brincava de sedução encontrou nele um olhar esquisito. No corpo de um homem maduro, um olhar de passarinho, fugídio e ansioso, que ela quis logo cuidar. Ele, que nunca havia reparado num olhar de mulher, percebeu ao encontrar o olhar dela, que ela ria com os olhos. &lt;em&gt;Ria rios&lt;/em&gt;. E ainda mais, lhe pareceu também a menina-mulher mais linda e encantadora deste e de todos os universos conhecidos e desconhecidos. Eram os olhos que ele nunca mais queria deixar de olhar. Teria o destino lhe incutido o desejo de procurar uma amante no exato momento em que ele encontrou a mais bela e impressionante mulher de todo o mundo? Teriam sido eles que escolheram amar? Ou o amor que os teria escolhido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi o último palestrante daquele dia da convenção. Ela o viu falar, e ficou admirada com a maneira que ele conduzia bem as palavras, apesar de só falar de números distantes, ela compreendeu tudo o que ele quis dizer. Não tinha uma voz pungente, era algo bossa-nova, mas falava com convicção e com tamanha propriedade, que todos seus argumentos se tornavam simples e irrefutáveis. Naquele instante em que ele se diferenciava de todos os mortais, ela estava absolutamente encantada: se ele fosse um vendedor, ela teria comprado qualquer produto dele, mesmo que ela nunca o usasse; se ele fosse um cientista, ela se ofereceria como cobaia de uma experiência, na qual injetaria perigosas toxinas na corrente sanguínea; se ele fosse um mágico, ofereceria sua cabeça para que ele apoiasse uma maçã, alvo de um tiro de carabina; Ele sendo homem, ela lhe daria sua alma, se ele pedisse – &lt;em&gt;mas só se ele pedisse&lt;/em&gt;. Todos permaneceram calados enquanto falou e o aplaudiram de pé, quando encerrou a apresentação. Recebeu muitos comprimentos, inclusive o dela, sorrateiro, que não disse nada, apenas um pequeno sorriso e deixou para ele um bilhetinho com letrinhas apertadas, um tanto oferecido é verdade, que ele leu disfarçadamente, entre chacoalhar de mãos e tapinhas nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era noite quando se encontraram no hall do hotel. Ele disse apenas "oi", e ela respondeu apenas "oi" e sorriam-se do mesmo sorriso, como se o sorriso fosse uma longa palavra repleta de sílabas. "Queres conhecer a cidade?", ela disse com voz de vinho tinto. Foi que ele olhou para fora, através dos vidros da fachada do hotel, e percebeu as primeiras gotas caindo do céu. "Está chovendo" ele constatou. E andaram em uníssono até a porta do hotel. Ele, que não se importava com a chuva falou: "Vamos na chuva". Ela, que adorava a chuva respondeu: "Se eu puder segurar a sua mão".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceram os sete degraus do hotel, e se perderam em palavras pela chuva, pela noite, pelas estrelas, pelo rio. E tudo que viveram e viram naquele dia parecia encantamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, pela primeira vez na vida sentiu-se a personagem do livro que sempre quis. Ele procurava uma amante e encontrou uma razão para viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;( rascunhos )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ano depois, estavam num quarto de hotel, numa cidade a beira-mar. Ela estava na cama, com as costas na parede e as pernas cruzadas, perdida em seus próprios pensamentos. Ela estava com problemas, maiores do que podia suportar. Ele também passava por um período difícil. Ele pensava, em sua lógica cartesiana ter arranjado a solução para tudo, tanto para ele quanto para ela – falava como um louco sobre o que havia acontecido (tão diferente da palestra no dia em que se conheceram) – e esse era o motivo desta viagem tão repentina, tão sem pé nem cabeça, falava atropelando as palavras, falava com dor, falava desespero e esperança ao mesmo tempo: a promoção não veio, mas não se importava mais, seu plano de vida havia acabado há doze meses, quando a conhecera naquela cidade a beira do rio. Com ela, ele aprendera a olhar a copa das árvores, aprendera o nome das flores, ele que nunca havia amado realmente, aprendera a amar. Seu mundo de números e objetivos sociais era uma planilha, esposa e os filhos mais um detalhe técnico, onde sentimentos fúteis como sonhos e alegria não lhe eram permitido. Depois dela, ah, depois dela, a sua vida era outra. Por isso, inadvertidamente pediu demissão da multinacional. Por isso inadvertidamente abandonou a esposa, abandonou os filhos, deixando-os com todos os bens. Por isso, inadvertidamente ele estava ali, para ficar com ela. Para ficar com ela. O resto ficava para trás, essa foi a única maneira que ele havia encontrado para ajudá-la, ela que era a mulher da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Ele entendia o amor como devoção. Ela, como diversão.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o que ela mais temia que ele fizesse. Não se achava digna disso. Não sabia o que dizer. Ficou em silêncio, o silêncio dos momentos difíceis. Abaixou a cabeça e poliu o diamante do piercing, parecia tão concentrada. Ele falou com desespero do rumo que tinha tomado a sua vida, e ela olhava apenas para seu próprio umbigo. Ele sentiu-se um tolo. Disse alto: "Vou andar na praia". E saiu do quarto batendo a porta. Desta vez, desta vez não choveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela, que preservava tantos sentimentos dos outros, o havia magoado da maneira mais vil e insensível, o havia magoado com a indiferença. Poderia ter gritado, batido, esperneado, poderia ter feito qualquer coisa. Poderia tê-lo matado. Mas não fez nada. Apenas deixou. Pensou em remediar, talvez conversassem depois, e achassem uma outra solução menos drástica para continuarem existindo, já que tudo entre eles era tão bom. Não seria justo mudar os rumos de uma história tão bonita por causa de problemas que eram só dela. Não sabia como dizê-lo, naquele momento queria recompensá-lo pelas alegrias imensuráveis e por tantas dores que haviam passado juntos ao longo daquele ano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele voltou mais calmo, horas depois, abriu a porta lentamente, pensou em conversar, pensou talvez que ele estivesse errado, trazendo seus conceitos de solução, impondo um destino que ele nem havia perguntado se era o que ela queria. E viu o apartamento, cheio de velas vermelhas que exalavam essência de canela. Ficou feliz em seu íntimo, reconheceu ali, naquele cuidado, que ainda havia um "eles". Caminhou lento até o quarto iluminado apenas pelas chamas. Foi que ele viu, ela nua, ajoelhada na cama de costas para ele, com as ancas empinadas e exuberantes, o cabelo negro escorrendo em cascata até o cóccix. Foi que ele viu, o quanto ela era bonita e bem formada, e o quanto mais ela ficava, com a pele cor de pecado iluminada pela dança do fogo. Foi que ele viu, mãos brancas de unhas vermelhas lhe surgirem na cintura, uma de cada lado, contrastando com a pele morena. Foi que ele viu, uma loira na cama – de mãos brancas de unhas vermelhas – , também nua, oferecendo o corpo e a boca para ela beijar. Não acreditando nos seus próprios olhos, aproximou-se ainda mais. Ela lhe sorriu, orgulhosa da sua conquista, passava a mão morena na pele de cera da turista estrangeira mais bonita hospedada no hotel, passava a mão pelo pescoço pelos seios, pelo ventre da loira, passava a mão pelo universo macio e perolado daquela pele tão diferente, ela o fazia tão delicado como se polindo um troféu. Depois passou a arranha-la com as unhas, formando riscos paralelos cor de rosa na pele tão sensível, riscou seios, coxas, braços e costela. Assim, ela quis se desculpar, dando-lhes uma mulher, uma desconhecida, para que vivessem uma noite mundana, a três. Ela sorriu para ele, com a fagueirice costumeira, e segurou a loira pelo cabelo (como ele costumava a segurar, ela fez questão de mostrá-lo como ela gostava quando ele fazia isso ) e meteu a língua na boca da galega, boca pintada de vermelho. Ela se inclinou e os seios morenos e voluptuosos caíram por sobre os seios macios de bicos róseos da gringa, as duas arfavam, se enroscavam e se lambiam as bocas, se lambiam as línguas. Entre os beijos, ela se empinava e rebolava involuntariamente, com as unhas vermelhas cravadas lhe fazendo rasuras na carne macia da bunda. Ela chamava a loira de puta quando lhe lambia a orelha, umedecendo com a saliva para depois secar com hálito quente, e quando fazia isso a estrangeira se contorcia sorridente, gritando e dizendo coisas que nenhum dos dois entendia. Elas se metiam a língua na boca e os dedos se melavam no sexo uma da outra, se esfregavam e gemiam. Ele vendo tudo aquilo corou, e sentiu nojo. Nunca havia visto uma mulher beijar outra na boca. Veio o embrulho no estômago, e foi para o banheiro vomitar. Ela foi atrás dele, não sem antes gozar um gozo urgente, e botar a galega para fora do quarto com gestos - a estrangeira ainda extasiada pela imensidão do gozo intenso que havia gozado, resistia, sem entender muito o que estava acontecendo, tremendo e trançando as pernas, sorrindo e querendo mais beijos de boca, colocou até calça pelo avesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela voltou, não o encontrou no banheiro. O encontrou na sacada que proporcionava uma visão esplendorosa do mar e da Lua. Ele estava nu. Parecia calmo, satisfeito, pois havia uma vez na vida encontrado uma felicidade inebriante que nunca sequer havia cortejado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não morra por minha causa – ela disse – não vale a pena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ele lançou-se ao ar, não porque desejava a morte. Saltou como um anjo, porque pensava em voar, acreditava que o amor lhe daria asas. Mas, não deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrou o frio chão de concreto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, coberto de sangue. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-1507797624602377358?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/1507797624602377358/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/12/o-paragrafo-mais-intenso.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1507797624602377358'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1507797624602377358'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/12/o-paragrafo-mais-intenso.html' title='O parágrafo mais intenso'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-8656479827168561438</id><published>2009-09-02T08:04:00.001-07:00</published><updated>2009-09-02T08:08:34.457-07:00</updated><title type='text'>Andorra</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Era uma dessas meninazinhas, tão pálida e tão bem formada quanto qualquer homem desejaria que fosse, uma dessas, cujo o nome ninguém lembra e cuja a essência é dispensável. Só o que importava daquela moça que se estendia como a primavera pelos lençóis através da cama, era a nudez juvenil com frescor de flores silvestres. Era mais uma aluna que teria que aprovar, não pelo favor do sexo, mas para se livrar do engodo. Torcia para que não fosse daquelas sonhadoras que lhe insistiam em histórias tolas de amor ou de fidelidade eterna. A sedução era uma chatice inenarrável. Agachado e sem roupas num dos cantos do quarto, ele segurava um cigarro de maconha aceso entre os dedos médio e indicador, e a observava silencioso. Tentava se lembrar em que momento a vida havia perdido a magia e se tornara um tédio. Uma enorme estrada reta e plana de paisagem semelhante e sem fim. Nenhuma descoberta lhe fascinava mais, nenhuma nova tecnologia, nenhum pensamento ou pensador, nenhuma nova mulher lhe trazia o encanto de outrora. Tudo era repetição num formato diferente. Na vida acadêmica, as mesmas aulas, as mesmas palavras, as mesmas reações, as mesmas indagações e as mesmas indignações. As bocas mudavam, os corpos mudavam, os nomes mudavam, as classes mudavam, mas tudo era sempre o mesmo. Kierkegaard era sempre o mesmo. Heidegger era sempre o mesmo. Derrida era sempre o mesmo. Foucault, Nietzsche, Platão. Eram sempre os mesmos e o que disseram continuava sempre o mesmo. Nada de novo. O mundo sempre era o mesmo mundo com as mesmas necessidades, com os mesmos tabus e as mesmas distâncias; era o mesmo mundo com as mesmas guerras, as mesmas comédias e as mesmas tragédias. A mudança só havia nele: seu corpo exausto mantinha o tônus e a beleza de antes, mas agora era grisalho e os músculos lhe doiam. Também lhe doía a alma. Gostava da leveza que o cigarro da erva lhe causava, fazia parte do ritual. A foda, o gozo, a ganja, o topor. Era uma tentativa débil de estender a sensação de prazer. Só fumava quando fodia. E fodia uma foda de um gozo só. Tentava manter artificialmente interessante toda aquela encenação que lhe habituara desinteressante. Com os pensamentos entorpecidos, buscava resquícios do encantamento que outrora lhe iluminava a vida. Mas não via nada, só um enorme vazio, que ecoava retumbante e rodava em seus pensamentos. O sexo havia terminado. Era hora de despertar a garota, tirá-la da sua cama. Dar um pouco de dinheiro para o táxi. Fechar a porta. Talvez, antes disso tudo, brincar, apenas pelo intenso interesse na anatomia feminina, sodomiza-la com os dedos enquanto ela permanecesse assim, tão deitada, tão nua e indefesa. Adorava fazer isso, meter-lhes o dedo e sentir a carne contrair. Adorava tomar de assalto o corpo das fêmeas. Fêmeas. As mulheres haviam perdido a singularidade. Eram só plurais. E ele também, era mais um, para encher-lhes a alma de ego. Mal sabiam as alunas ricas, bonitas e jovens que se ofereciam a ele e que se esforçavam tanto em jogos eróticos, que ele deitaria com uma cadela, ou com uma prostituta fétida de beira de cais. Tanto fazia, desde que houvesse uma buceta no corpo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Você só quer chamar a atenção – disse-lhe, Andorra – Quando te conheci, era abstêmio. Por que agora bebe deste jeito?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Bebo para morrer – respondeu o professor, rindo embriagado enquanto lhe escorria a cachaça pelos beiços. E ainda citou Sartre propondo um brinde: “Por mim, creio que estamos mortos há muito tempo: morremos no exacto momento em que deixamos de ser úteis.”&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– É como eu disse, só quer chamar a atenção. Se quisesse morrer, metia um balaço no peito.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Não. Faz muita sujeira e dá trabalho. Além do mais Maiakovsky já fez isso por sua Lila, e como dizia ele: “melhor morrer de vodka do que de tédio”. E armas-de-fogo tornam a morte irreversível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;–A morte é sempre irreversível.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Nem sempre. Há muitas maneiras de morrer. "O homem morre a primeira vez quando perde o entusiasmo" diria Balzac.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Sei. Que tal cicuta?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Morrer como o próprio Sócrates? Seria uma honra para um professor de filosofia. Vou anotar a sugestão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Amava Andorra. Mulher de mil palavras, mil verdades e mil dogmas estridentes. Era única, sedutora, encantadora. Era voluptuosa, inteligente. Sabia várias línguas, conhecia todos os autores. Falava livros. Sonhava filmes.Vivia poemas. Uma mulher arrebatadora que nunca passava despercebida entre os homens. Uma mulher assustadora, que expunha as fraquezas masculinas com um riso sádico. Ela gargalhava, se divertia, enquanto os homens se avolumavam e gaguejavam a seus pés, vislumbrados diante da formosura de suas curvas. Ela gozava com o embaraço que causava aos outros. Andorra tinha o nome de um país, um minúsculo país na Europa, espremido entre a república francesa e o reinado espanhol. Mas Andorra não tinha nada de minúscula, era enorme, gigantesca em seus vinte e poucos anos. Possuía a França com o braço direito, a Espanha com o esquerdo, possuía o mundo inteiro com as coxas e em suas tatuagens cheia de significados que só podiam ser vistas diante da sua inteira nudez. O professor a amava, por que quando tomava o corpo de Andorra, também tomava sua alma. E quando a tinha, tinha o mundo inteiro. Andorra também o amava pois ele era corajoso. Ele não tinha medo da morte, nem da vida. E não tinha medo dela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Estavam nus na cama. Ele a acariciava no rosto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Foge comigo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Você sabe que eu não posso. Vai ser pior para todo mundo. Vai ser pior para mim. Com você eu não tenho o direito de errar. Queria que fosse diferente, queria ter te encontrado antes, antes das tuas e das minhas amarras.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Merecemos uma vida juntos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Quem sabe na próxima vida, professor? Nesta, eu sou a esposa do teu filho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Era tarde demais. Tarde demais.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-8656479827168561438?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/8656479827168561438/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/andorra.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/8656479827168561438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/8656479827168561438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/andorra.html' title='Andorra'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-7138110268433003393</id><published>2009-09-02T07:56:00.000-07:00</published><updated>2009-09-02T08:02:08.556-07:00</updated><title type='text'>A Carta ( uma outra resposta )</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Um dia você disse que queria minha dor. Escrever com minha dor, viver a minha dor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Foi assim que nos conhecemos. Você me olhando com seus olhinhos brilhantes enquanto eu lhe discursava sobre a satisfação da carne, sobre a impossibilidade da felicidade, sobre sofrimento do ser humano e sobre a cachaça. Eu lhe explicava como cada bebida se apresentava ideal para uma desilusão diferente. Como cada gole lembrava um caso de amor diferente. Como cada baforada exauria demônios diferentes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;em&gt;Você me amou aquele dia&lt;/em&gt;, viu beleza em tudo que eu disse, e me brindou com suas teorias, me compartilhou seus ídolos de papel, me mostrou sua bagagem de escritora e suas músicas para suspirar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E me encantei com você aquele dia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Por que todas as outras mulheres que tive eram rameiras que nada me ofereciam, e se findaram junto com a grana que torrei com elas. E assim aprendi a vida, de foda em foda, de bebedeira em bebedeira, de grana em grana até tudo esvair e começar de novo. Talvez eu nunca realmente as tenha amado, só comprava a ilusão do amor, em troca de novas dores. Eram sempre bons motivos para blasfemar a vida, encher a cara e desejar morrer de desgosto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Você chegou diferente de tudo, um retrato colorido num mundo preto e branco. Não se importou com minha pele sulcada e com a amargura das minhas palavras. Você me amou assim, por que eu conjugava filosofia e sacanagem num mesmo verbo de tempo contínuo. Me amou, porque eu escarrava os impropérios da minha vida com um sorriso devastado. Me amou, porque eu não acreditava mais no amor e você quis me provar o contrário, como uma garotinha mimada que quer ter sempre a razão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E você invadia aquele bar mal cheiroso, onde só havia homens fedendo a nicotina e angústias, homens flertando alegria na embriagues. Você veio com seu sorriso encantador, com seu cheiro inebriante de mulher fresca. Você veio atrás dos meus poemas de dor, nos guardanapos sujos. Veio atrás das piadas pornográficas. Veio a trás dos palavrões inauditos, dizendo que era tudo que você precisava, para seu novo livro. E você bebeu comigo. Queria mostrar que era fudida, que podia agüentar tudo. Eu me divertia com essa sua coragem. E me encantei novamente, pelo seu arrojo. Por esse inconseqüente medo de nada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Foi aí que fodemos. Assistindo seus filmes, ouvindo seus discos e você sussurrando nua no meu ouvido as canções de Bethânia. E você não se importou da maneira suja que te possuía, não se importou que eu a invadisse e a lambesse. Até gostou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E eu te amei. Por que supus que não existisse ninguém assim no mundo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E existia você.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Como você ousou fazer isso comigo? Dar sentido a minha vida desgraçada? Como ousou brotar a esperança de um futuro impossível? Por que me fez crer que poderíamos ser felizes? Por que me fez a amar assim, com essa intensidade doentia?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E por que eu acreditei em tudo?&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Eu, que não esperava mais nada da vida. Eu que decretava ter vivido e visto tudo. Até que veio você. E ousou me ensinar o amor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Mas nunca me ensinou a amar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;em&gt;Um dia você disse que queria minha dor.&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Escrever com minha dor, viver a minha dor&lt;/em&gt;. Mas a dor que você tanto desejou para si, foi só minha. Éramos nós. Mas a dor não era nossa, era minha. E sobre o amor, pequena, escreva nos teus cadernos de rascunhos: o amor fere, rasga a carne e mergulha no sal. Não precisava inventar uma tragédia na minha vida, nesse final de livro. Minha tragédia é o amor. Esse ser metafísico e inatingível. Se eu trepei com suas amigas, foi por que quis que olhasse para mim. Tudo que eu fiz, foi para que notasse minha angústia. Foi porque eu te amo, e amor é desespero. Eu sei que fiz tudo errado, e que você veio com palavras polidas cheias de dedos tentando refazer tudo que meu desespero destruiu. Eu não queria suas palavras polidas, eu queria uma ofensa. Um sinal qualquer de que seu amor por mim não passava de um capricho de menina.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Foi assim que eu fodi tudo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;em&gt;Porque eu te amei mais do que eu poderia&lt;/em&gt; e porque deixei de acreditar no teu amor&lt;em&gt;.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;A minha vida voltou a ser o que era antes de você aparecer. Só que me deu motivos. Todos os motivos de uma vida inteira. Quando eu falar de lamento, vou lamentar sua ausência. Quando falar de dor, vai ser a dor que me infligiu. Quando fumar, vai ser dos teus lábios soprando meu rosto que vou desejar. Quando tomar a cachaça, vai ser dos goles que tomei da tua boca que vou beber. Do vinho, vai ser o que lambi, escorrido do teu seio.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Vou te amar para sempre.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Escreva sobre isso no teu próximo livro. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-7138110268433003393?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/7138110268433003393/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/carta-uma-outra-resposta.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7138110268433003393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7138110268433003393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/carta-uma-outra-resposta.html' title='A Carta ( uma outra resposta )'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-1591651174022915284</id><published>2009-09-02T07:52:00.001-07:00</published><updated>2009-09-02T07:52:52.519-07:00</updated><title type='text'>O telefonema</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Alô.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Alô! Por favor, O Maior Amor do Mundo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Não tem ninguém aqui com esse nome.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Ah, desculpe, foi engano.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-1591651174022915284?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/1591651174022915284/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/o-telefonema.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1591651174022915284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1591651174022915284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/o-telefonema.html' title='O telefonema'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-6746632384335561249</id><published>2009-09-02T07:37:00.000-07:00</published><updated>2009-09-02T07:50:21.976-07:00</updated><title type='text'>Anônimo</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Por que você disse que me amava? Por que disse que faria tudo por mim? Por que disse que queria um filho meu? Por que foi tão atencioso? Tão maravilhoso? Tão bonito e tão simples? Por que me pegou no colo todas as vezes que eu precisei? Por que me fez carícias enquanto eu deitava a minha cabeça no teu peito másculo? Por que me fez te amar assim, tão irremediavelmente?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Eu que tinha tudo antes de você me oferecer essas tantas coisas. Eu tinha alegria, tinha vontade de viver. Eu tinha uma vida. Tinha aventuras com todos os homens que eu desejasse. Então você veio e me mostrou esse mundo maravilhoso e colorido. Por que me fez acreditar em fidelidade, em união de almas? Por que me deu tanto? Deu as coisas que eu não queria, que eu não precisava. Por que fez isso?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E por que agora tirou tudo de mim? Por que você me largou com a boca vazia e a vontade de um beijo? Fiquei mal acostumada. Muito mal acostumada, meu amor. Meu grande amor. Minha boca anda tão vazia sem tua língua nela.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Eu me desfiz em mel toda vez que você me tocou. Como poderia esperar de mim retidão? Não tenho essa sua dureza, essa sua imponência estóica. Sou passional. Absolutamente passional. Irracionalmente passional. Sou mulher. Depois de tudo de bom que você me deu, me perdoa por querer o teu sangue. Me perdoa desejar tua infelicidade. Me perdoa por desejar tua solidão. Me perdoa por isso, por favor. Me perdoa, a despeito de eu continuar te amando... me perdoa, por desejar que você se foda.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-6746632384335561249?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/6746632384335561249/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/anonimo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/6746632384335561249'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/6746632384335561249'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/09/anonimo.html' title='Anônimo'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-3765285552340525015</id><published>2009-08-19T09:13:00.000-07:00</published><updated>2009-08-19T09:23:49.613-07:00</updated><title type='text'>O Ato em um Parágrafo ( e suas explicações )</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;(Ela mesma já não sabia quem era. Interpretava um papel doce e macio enquanto conscientemente demonstrava suas curvas e decotes atrevidos fingindo inocência. Na sua atuação era metade pura, metade devassa. Suspirava e dava sorrisinhos e presenteava os homens com os corpos celestiais, com a foto das mãos entrelaçadas e com juras de eternidade. Quando fodia banhava os amantes em seus líquidos escorredios, marcando-os o corpo, impregnando-os com o cheiro do seu prazer e dizia: "para nunca mais esquecer de mim". Doava-se inteira. Mas era mentira. Tudo uma imensa e interminável mentira).&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Se hoje ela tivesse um nome, seria Farsa. Se apresentava com várias identidades, com várias formas e em vários atos. Fazia tudo para agradar, como uma legítima cortesã. Mas não eram as posses, as jóias, as viagens cada vez mais longe que a deslumbravam. O que buscava era vingança. Vingança pelas dores da mãe. A interpretação não era nova e se repetia com freqüência, os diálogos reproduziam a mesma ordem sabida e decorada. O primeiro passo, seduzir. E em velocidade abissal os outros atos se sobrepunham: possuir, arrancar, despedaçar, destruir, matar. Às vezes sorria, pelo simples prazer de sorrir com os lábios cheios de porra, pela sensação heróica de ter entrado na vida de um homem e ter roubado dele a alma. E quando disforme, sem propósito, sem força, sem vestígios, o homem caia envenenado pelo amor doentio, ela regurgitava a porra engolida, e num vômito devolvia mastigado e morto o coração que um dia ela untou com poesia e líquidos vaginais. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;(O primo era seu meio-irmão. E também compartilhavam o mesmo sangue, outros dois ou três bastardos, que freqüentavam assiduamente sua residência. Os fatos eram tratados em sigilo absoluto por entre familiares e empregados, mas a verdade permanecia intacta e conhecida. Era sabido: o pai fraquejava diante de uma moça, de qualquer moça formosa o bastante para lhe chamar a atenção. Assim ela cresceu, vendo a mãe regar os quatro cantos da casa com as lágrimas infelizes da dor-de-traição. As lágrimas salgadas tornaram infértil o coração da menina. Forjada num berço caótico, onde pai imperava entre coxas alheias como Priapo e a mãe como servil escrava paradoxal – fraca o bastante para aceitar tudo, forte o bastante para aceitar tudo – a menina prometeu, mesmo sem saber, que homem nenhum lhe arrancaria o choro. Aprendeu, mesmo sem saber, que o gozo é eterno. E o amor, tragédia).&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-3765285552340525015?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/3765285552340525015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/08/o-ato-em-um-paragrafo-e-suas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/3765285552340525015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/3765285552340525015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/08/o-ato-em-um-paragrafo-e-suas.html' title='O Ato em um Parágrafo ( e suas explicações )'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-4773016969098664963</id><published>2009-08-19T08:27:00.000-07:00</published><updated>2009-08-19T08:29:30.849-07:00</updated><title type='text'>Do diálogo inaudível</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Por que você não desiste de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Queria responder a ela com as palavras mais bonitas, queria poder dissertar por horas. Queria falar da beleza, da complexidade. Queria falar em sussurro sobre os dias de poesia infindável, sobre os presentes que ele guarda como bens preciosos. Queria falar das coisas intangíveis, dos astros, dos elementos da natureza e as evidências que se apresentavam e lhe haviam desenhado os destinos juntos. Queria falar da poeira, do vento, dos pássaros. Queria falar de biologia e sobre suas próprias teorias de atração. Queria falar das canções que compôs, das músicas que ouviu, e das canções que ouviram juntos. Queria falar dos livros, dos filmes. Dos livros e dos filmes que contavam a história deles. Dos livros que escreveram. Dos filmes que filmariam juntos. Queria falar com paixão sobre as noites de sono perdida, dos dias que antecediam os encontros. Queria lhe falar das fotos que tiraram juntos, dos lugares em que estiveram juntos. Queria lhe falar das horas de conversas imaginárias e dos diálogos que sonhava ouvir escorrendo da boca dela. Queria falar da criança, que um dia esperava botar no ventre dela, e que veria crescendo, brotando, tomando forma, enraizando suas carnes, tornando um só o melhor de duas vidas tão diferentes e nasceria o ser humano mais perfeito do universo. Queria inventar um verbo que só pudesse ser conjugado em momentos de êxtase. Queria saber pronunciar palavras de encantamento em línguas mortas ou recém inventadas. Queria fundar uma religião em louvor à ela que perdurasse por milênios. Queria descobrir um país de dimensões continentais e batizar com o nome dela. O nome dela. Queria desenhar, com as navalhas mais afiadas, o nome dela no peito, próximo ao coração. Rezaria para que nunca cicatrizasse, sangraria assim o desenho das letras até o dia de sua morte. Pretendia lamber-lhe os dedos até que as digitais desaparecessem, lamber-lhe os dedos até que ela atingisse o orgasmo mais improvável. Ele queria tanto, a queria tanto. Queria que ela soubesse de tudo. Mas pensou que talvez ela estivesse cansada do seu amor emblemático. Pensou que talvez ela estivesse cansada de suas palavras soturnas. Talvez ela estivesse cansada da sua vida vadia. Queria ter a vontade por outras mulheres. Queria ter força o bastante para poder desistir dela. Mas a amava tanto, e depois de tanto tempo, era só a lembrança daquele amor que lhe fincava no rosto a expressão de felicidade. Nada mais).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sei, ele respondeu.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-4773016969098664963?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/4773016969098664963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/08/do-dialogo-inaudivel.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4773016969098664963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4773016969098664963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/08/do-dialogo-inaudivel.html' title='Do diálogo inaudível'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-2121410223523024814</id><published>2009-08-19T07:57:00.000-07:00</published><updated>2009-08-19T08:22:50.082-07:00</updated><title type='text'>O livro da minha morte</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;(esboço)&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ano IV&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;O barulho do mar me chama para a sacada. A brisa fresca acaricia suavemente minha pele enquanto observo toda a extensão do horizonte. É noite. Vejo o alvoroço branco das ondas encontrarem a faixa estreita de areia. Na orla as pessoas caminham aleatoriamente, em todas as direções, iluminadas por luzes artificiais. Esse é mais um dos meus relatos imaginários, mais uma das minhas conversas imaginárias que queria ter com você, segurando sua mão, na companhia do seu olhar sonhador. Queria ao menos sua voz ao telefone, queria poder te dizer isso, dizer que estou tão perto do lugar onde passamos juntos a nossa primeira noite. Queria falar que ainda penso em você. Mas você foi tão clara em suas instruções: não me ligue, não me escreva... Enfim, não estou naquela espelunca que ficamos, onde nem havia água quente, e que mesmo assim, soubemos transformar num palácio de belezas indizíveis. Desta vez estou num lugar de grã-fino onde minha nudez na sacada do 8o. andar do hotel é indiferente. Queria estar com você agora. Mas não estou. Nem estou só. Eu sei que a loira me observa da cama. É daquelas mulheres extrovertidas que gostam de se exibir na primeira oportunidade. Tão vulgar quanto uma cadela no cio, se ela não estivesse comigo, estaria com qualquer um. O que acabo de dizer faz parecer que eu sou um lixo, que não me dou valor. Na verdade é um pouco assim que me sinto, depois que te dei aquele amor gigantesco e você jogou todo na latrina de uma só vez. A loira tem um corpo lindo, mas no corpo, as marcas de sol, tamanha, que a faz nua, parecer em trajes de praia. Eu não gosto de marcas de sol. Na verdade, não gosto da loira. Nem sei o nome dela. Foi mais uma foda, como todas as anteriores, como as que virão. Foi pelo simples contato da pele, pelo prazer do gosto da vulva. Foi pela forma. Foi por vaidade. O gozo, ah, o gozo. Este que nos liberta da insensatez de libertinagem. O gozo que finda na vontade de si próprio. Não me julgo imoral ou mau caráter ao trepar só pela foda. Não minto, não deixo criar expectativas. As mulheres querem sempre se aproveitar de mim. E eu deixo. Sem promessas. Digo sempre que sou comprometido, e que é só por uma noite. Mas a noite, nunca é uma noite inteira. Não permito que essas mulheres dividam a cama comigo. É preciso afastá-las. Botá-las para correr, se for necessário. Meu pudor reside aí, nenhuma mulher há de ter ilusões com um homem que não compartilhe o sono com ela. É o acordo. Depois do gozo, depois do gozo... cada um segue seu caminho. Quero meu silêncio, minha privacidade, minhas dores. Como foi? Quando foi? Eu sei. Agora eu bebo também, bebo para lembrar, bebo para esquecer, bebo para foder. A embriagues mantém a sanidade do mundo. De resto, tudo dói. A loira está lá, nua. Linda. Com lábios macios e sedentos. Ficaram tão bonitos cobertos de porra. E eu só quero uma coisa. Que ela vá embora. Que suma da minha frente e que não apareça nunca mais. Ainda tenho dois dias nessa cidade, na cidade que inventamos para nós. Quem sabe o que pode acontecer amanhã? A recepcionista do hotel pareceu bastante entusiasmada com a minha presença. Ou alguma outra solícita dama qualquer em algum bar, algumas dessas mulheres que não tem nome. Tem formas e cores diferentes, tem sotaques e gestos diferentes, tem cabelos e unhas diferentes, tem gostos e cheiros diferentes, mas são sempre a mesma mulher. São a outra, são as que eu fodo. Todas são as que não são você.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;No firmamento, as estrelas se salpicam em constelações, o céu está limpo, como naquela noite em que andamos na areia, com os dedos emaranhados, como naquela noite em que dançamos ouvindo a velha canção. Nenhuma nuvem. Vejo a Lua. Lua minguante. Igual ao pingente pendurado no meu pescoço. Ainda carrego no peito presente que você me deu. E você? Onde você está? Será que ainda se lembra de mim? Será que ainda se lembra de como nos amamos? Será que você ainda olha para a Lua procurando beijos meus?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ano VI&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;As minhas amigas são assim, me acariciam o ego. Dizem de mim tudo que é bonito: minhas palavras; minhas formas; meu amor inútil. Falam bem até da minha música triste e descompassada. Algo todas elas tem em comum, elas execram você (mas eu sempre a defendo, depois de tantos anos, mesmo quando acho que elas tem razão). Qualquer mulher fica fascinada quando vêem um homem dedicar sua vida a um amor soberbo e absoluto. Penso que, queriam elas, serem merecedoras desse amor. Mas, talvez você tenha razão, talvez isso seja pesado demais. Foi por isso que você foi embora de mim. Não bastou eu ser bonito, inteligente, te encher de carícias, trepar direitinho, rir das suas piadas e fazer loucuras por você, dentre tantas outras virtudes que você enumerou. Meu erro foi acreditar em você, você que era uma pirralha, eu que já era um homem adulto. Não há nada mais patético e desestruturado que o amor de um homem maduro. Seduzir é fácil, aprende-se na tentativa e erro, arranjar uma mulher para casar é fácil, basta saber onde procurar. Quanto ao amor, esse não se aprende, não se aprende com os erros e nem com os acertos, é um caminho longo e vertiginoso, sem pé nem cabeça. O amor é subversivo, destrói todas as certezas. O amor, minha cara, o amor é um perigo. A um jovem, onde é permitido o erro, a inexperiência, tudo é compreensível e perdoável. Mas de um homem maduro, isso não se é aceito. Não deveria ter acreditado quando disse que me amava e que faria qualquer coisa para ficarmos juntos. Me deixei amar você, só você, ninguém mais além de você. Amo você além da razão, no limite da estupidez. Para você foi fácil desistir de mim, foi como desligar um botão. Mas para mim, ainda dói, por que eu acredito nas palavras, e acreditei quando as disse para mim. Acreditei na nossa intensidade. Acreditei na nossa coragem e na nossa invulnerabilidade. Se eu ainda pudesse lhe dar algum conselho, diria para não usar com outros homens as palavras que usou comigo. Que não prometa a Lua para outro, se já não o fez. Homens não sabem amar, minha querida. Homens não sabem perder. E o amor, é uma derrota constante.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Hoje são as minhas amigas que ouvem meus êxitos e meus lamentos, e ainda assim gostam de mim, talvez porque eu as ouça também. Ouço quando brigam com o namorado, as ouço quando me falam de seus projetos, de seu trabalho, quando falam do curso de teatro ou de corte e costura. As ouço quando estão carentes e quando precisam de sexo. Elas sempre me procuram quando precisam de sexo. Já me deitei com algumas delas, algumas vezes. Já me deitei com poucas delas, muitas vezes. Mas continuo fugindo da promessa vaga da noite de sono. A ultíma mulher com quem passei uma noite foi você. E vai ser assim, até que você volte, se um dia você voltar. Algumas das minhas amigas insistiram em mim, até me propondo casamento, mesmo sabendo desse imensurável amor maldito que sinto por você. Talvez, quisessem ser mártires. Mulheres são fascinantes em suas sutis diferenças, há as que gostam de apanhar, há as que gostam de carinho, há as que gostam de acrobacias. Há as que preferem apenas um abraço justo e um beijo de bico de boca. Há as que riem, que fazem graça. Há as que choram como adventistas do sétimo dia. Há as que se arrepiam com um toque, há as que gozam com uma palavra, há as que fogem do olhar. Destilo meu corpo nesses encantos pueris, onde não vejo maldade. Estou sempre caminhando no limiar erótico com elas. Mas não me relaciono mais com uma mulher só, sempre tenho duas ou três acontecendo simultaneamente, tento, com elas, montar você, como num quebra-cabeça.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Nunca me dei bem com homens, desde cedo preferi a conversa das mulheres. Talvez tenha encontrado beleza nessa inconstância feminina. Os homens são bicho reto. As mulheres circulam, circundam, dançam e não se inibem em dançar. Nunca são idênticas, mas tem as mesmas necessidades. Não são idênticas, mas são sempre a mesma mulher. São a outra. Todas são as que não são você. Sem o álcool, procuro seu corpo na nudez alheia, procuro a textura em cores diferentes, o sabor em formas diferentes. Procuro as palavras que me dizia, em bocas diferentes. Nunca encontro, talvez pedaços, frações. Talvez impressões. Mas nunca ninguém como você. Por isso eu bebo. Por isso eu bebo cada vez mais. Às vezes confundo tudo e acho que as mulheres têm gosto de vodka. Às vezes, acho que o sexo tem gosto de infelicidade. Mas só depois do gozo... depois do gozo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ano VIII&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Engraçado pensar nisso hoje. Nunca mais disse "eu te amo" para ninguém. Essas palavras se tornaram onerosas demais depois de tudo que aconteceu. Quanto tempo terá durado a sua eternidade prometida? Um verão? Dois? Será que ainda se lembra do que conversávamos? Será que ainda se lembra de mim? Do que se lembrará? Dos nossos dias maravilhosos, dos nossos encontros surreais? Lembrará do sexo fascinante? Ou lembrará do meu desespero quando estive a ponto de te perder? Lembrará das besteiras que eu fiz? Das palavras que rarearam com minha angústia? Me perdoaria? De todas as promessas, me vejo diante de uma que não posso cumprir. A promessa de buscar você. Agora não posso, não poderei nunca mais. Não posso ser responsável pela sua morte, não da maneira como alguém foi da minha. Não poderei lhe entregar meu corpo. Não poderei lhe entregar a morte como presente de amor. Eu te amo. Só você. E pra sempre. Não posso lhe entregar o corpo, mas a alma, é sua, sabe disso. Minha eternidade se esvairá em alguns anos, talvez meses. De certa forma estou satisfeito, o molde da velhice nunca me agradou mesmo. Meus avós paternos morreram quando eu ainda era pequeno, minha avó materna me destratava, pois eu era um bastardo, filho de um divorciado. Meu pai, o divorciado, morreu com menos de cinqüenta anos, e se arrastou por três ou quatro anos por causa de um derrame. Quando ele morreu, para ser sincero, me senti aliviado e fingi a lágrima que me escorreu dos olhos durante o funeral. A frase clichê nunca fez sentido para mim "sabe como são os avós"! Talvez por isso tenho essa repugnância pela senilidade. Eu desejava que minha avó morresse. E logo. Aposto que ela queria o mesmo de mim. Me dava trocados no final do ano ao invés de abraços. Em despudor a velha resolveu passar os últimos dias de invalidez na casa da minha mãe, na cama da minha mãe, e morreu lá. Ao menos, em silêncio. O silêncio da morte me foi privado. Tive que ligar para um monte de mulheres, anunciar meu destino fatídico. Elas entraram em pânico, claro. Algumas me amaldiçoaram. Quase todas se afastaram. Tenho medo de ter destruído a vida delas. O quão pesado é isso, tirar de alguém a esperança da velhice, de uma vida estável, de uma aposentadoria, de uma família. A mim, tanto faz. Tanto faz. Eu tinha só uma visão bonita da velhice, era com você, eu esperaria você o tempo que fosse, anos, séculos, milênios, esperaria que resolvesse sua vida, e que assim estaria disposta a mim. Nessa visão, eu parecia um pouco com Vinícius de Morais e moraríamos em uma casa da praia, você, senhora, mas conservando sua fagueirice de menina sapeca, com os cabelos longos e negros dançando ao vento. Faríamos aquelas coisas que sempre nos propomos: crianças, livros, pinturas, filmes, brincaríamos com as cores do pôr-do-sol e teríamos um jardim florido para você andar descalça e uma parede vermelha no quarto, que cobriríamos de citações e de seus poemas bobinhos, e quando morrêssemos, encontrariam na nossa história da parede o memorial do maior amor do mundo, capaz de agüentar tudo, de suportar tudo, de esperar todo o tempo necessário. Mas perdi a necessidade da longevidade quando você não me escreveu mais, não me ligou mais. Perdi tudo, quando você desistiu de mim. Mantive ativos meus e-mails, os que você conhecia. Mantive o mesmo número de celular, por sua causa sempre visito meu velho endereço. Pergunto na portaria se há ou não correspondências para mim. Quando havia uma nova mensagem, uma ligação perdida, ou até uma mala-direta impessoal, sonhava que fosse sua. Mas os anos passaram e perdi a esperança. Perdi a esperança, mas não me canso de reler suas cartas, de ver o vídeo que me mandou, com sua voz gravada, dizendo aquelas coisas. Uma vez, lembra?... Você falou que éramos iguais, e que por isso não poderíamos viver juntos, e que as diferenças unem as pessoas. Talvez não fossemos tão iguais assim: tirar você de mim foi uma decisão sua, arbitrária, em prol da sua felicidade. Tirar você de mim, foi minha tristeza. Sua alegria foi minha desesperança, sua vida, minha morte. Quer maiores diferenças que estas? Só não queria a morte lenta e humilhante. Estou cansado, cansado de tudo. Teoricamente, eu deveria ter ligado para você também, mas não tive coragem. Primeiramente, porque eu não quero que você saiba, não quero que tenha dó de mim. Num desses delírios de improbabilidade cheguei a imaginar que sabendo do meu estado você largaria tudo para me ver, para viver comigo. Seria humilhante definhar na sua frente. Não quero sua misericórdia. Quis o seu amor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ano X&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Meu amor, meu amor, meu amor,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Quantas vezes quis lhe dizer isso, quantas vezes sonhei com teus abraços e com sua voz me dizendo o mesmo. Temo que isso não seja mais possível, pois se você estiver lendo esta carta é porque estou morto. É engraçado até, mas é verdade. Vou escrever e deixar a carta com meu irmão, que se comprometeu a enviar no endereço certo, na data certa. Eu estava meio doente, então, resolvi escrever antes. Só para ter certeza de que receberia. Só para você lembrar que eu cumpro as minhas promessas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Bem, agora você está com a idade que eu tinha quando te conheci! Isso significa algo? Mais uma das nossas coincidências?Não sei muito o que dizer, mas nada de tristeza.A vida foi boa comigo, pequena, acredite:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Eu tive você.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;PS: Se houver vida após a morte, te espero na Lua.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ano I&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Me escreve?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- De novo? Você acabou de receber uma carta minha...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Me escreve daqui a 10 anos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Por que?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Não quero perder o contato com você... Mas se perder, quero saber se casou, se estreiou a sua peça, se está com filhos... O que a gente viveu é muito lindo para ficar só no agora.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Nem sei se daqui a 10 anos vou estar vivo!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Deixa de besteira, moço bonito, você nem é tão velho assim... e me escreve, tá bom? Promete?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Está bem, prometo... Mas como vou saber onde você vai estar morando em 10 anos?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Escreve para o mesmo endereço, aquela casa é da minha família há gerações, vai ter sempre alguém que me encontre. Estou tão feliz, tão feliz...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Por causa da minha carta?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Não, estou feliz por que você é o homem da minha vida. É aquilo que eu sempre desejei no meu sonho mais secreto. E você existe, e é meu. Só meu. Pra sempre.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-2121410223523024814?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/2121410223523024814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/08/o-livro-da-minha-morte.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/2121410223523024814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/2121410223523024814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/08/o-livro-da-minha-morte.html' title='O livro da minha morte'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-4374466528809427143</id><published>2009-07-01T11:06:00.000-07:00</published><updated>2009-07-01T11:09:31.252-07:00</updated><title type='text'>Do amor, laico impropério</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Amava-a tanto, mas tanto, que não sabia onde começava e nem onde terminava sua própria existência. Era um desses amores doídos e enraizados; um desses amores que não tinham começo e nem perspectiva de fim, apenas era. E era absoluto, absoluto como um inchaço permanente que lhe tomava o peito e lhe destituía a razão; absoluto, como o gosto amargo do álcool depurado na boca pela manhã do dia seguinte; absoluto como um vício, cuja ausência faria sua vida perder o sentido e a essência lhe tomava sensatez; absoluto, como uma condenação perpétua e irrevogável. Era absoluto, como a falta de escolha. Em outros tempos, outros dias, andava de peito erguido, altivo e orgulhoso, enquanto enlaçava com força os dedos da mão dela – a mais bela e formosa dos seres viventes – nos táxis ou nas ruas sem testemunha; era o mais feliz dos homens quando a possuía sem cerimônia em locais inadequados; era o mais feliz dos homens quando lhe roubava carícias impróprias e súplicas de eternidade; ou quando ouvia da boca dela as declarações mais tolas e as mais impossíveis promessas de fidelidade e amor, nas quais ele acreditava com furor como se estive ouvindo a voz sussurrada do próprio Deus materializado. Daquele tempo guardava fragmentos, cheiros, lembranças, restos de louça e fios de cabelo. Dos novos tempos... dos novos tempos, ele carregava o embaraço, sentia-se um débil, um ínfimo, um nada. Sentia-se assim, porque não tinha forças para renunciar a esse amor que lhe tomava o corpo e o espírito. Não falava mais dela para ninguém; o seu imenso amor, o seu enorme e incontrolável amor era um segredo, o segredo pelo qual ele andava cabisbaixo e despedaçado; era um segredo pela qual sua órbita ocular pendia sempre para baixo, fitando hipnotizado o chão. Era assim, pois Luiza um dia decidiu o amar de outra maneira, da maneira dela, de uma maneira que ele não compreendia e que a permitia amar dois, três ou quatro alternadamente. "Cada um de um jeito diferente" ela dizia sem culpa, criando um séqüito de homens a preencher-lhes com lambidas e membros eretos o corpo e o ego, banhados à saliva e gozo. "Sou assim", justificava.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Então me liberte.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Como?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Diz que não me ama mais, por favor.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Sempre que ele pedia, ela respondia com um profundo silêncio e depois soltava: "Preferia que me odiasse, para não te ver machucado". "Eu preferia te odiar", ele retrucava. Luiza também não conseguia abrir mão daquele amor imenso, aquele amor shakespeariano, um amor pleno de filme, um amor pelo qual as mocinhas suspiram na escuridão do cinema. Um amor único e inestimável, que lhe doia a alma porque não sabia o que fazer dele.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E ele passava os dias a esperar que ela o chamasse, de quando em quando, entre uns amores e outros. E se amavam assim, na tristeza e na incoerência, porque não podiam ficar um sem o outro. E porque achavam bonito doer e morrer de amor.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-4374466528809427143?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/4374466528809427143/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/do-amor-laico-improperio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4374466528809427143'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4374466528809427143'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/do-amor-laico-improperio.html' title='Do amor, laico impropério'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-5469139402875627077</id><published>2009-07-01T10:53:00.000-07:00</published><updated>2009-07-01T10:58:07.190-07:00</updated><title type='text'>A parábola do escorpião</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Você está sangrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não queria te fazer sangrar. Só queria viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu sei. Mas machuca saber que você estava vestida com a minha música e seguiu descalça os passos que eu havia lhe desenhado. Mesmo desta maneira, sequer lembrou de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A gente não tem culpa quando não lembra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A gente não tem culpa quando não esquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A nossa história eu escrevi numa narrativa de tanto amor, por favor, não rasure a minha docilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A nossa história é um livro de páginas trocadas. Às vezes precisamos de rasuras para o texto fazer sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me dá seu coração? Põe ele aqui na minha mão, por favor, põe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu só tenho esse coração. Nele carrego minha alma, minha inquietude e minha vontade de viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me dá? Ele é tão bonito. Prometo nunca mais machucá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não consigo negar o que já te pertence. Pegue-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;( Ela o segura na palma aberta da mão, o vê pulsar ainda sangrando. Ela sorri e dá um suspiro antes de fechar punho com toda força, esmagando o coração.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ops.- Você prometeu... Por que? Por que você fez isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Porque algumas promessas eu não posso cumprir. As pessoas são assim, não sabia? Só prometem por educação. E usam as palavras para massagear o ego.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-5469139402875627077?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/5469139402875627077/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/parabola-do-escorpiao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5469139402875627077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5469139402875627077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/parabola-do-escorpiao.html' title='A parábola do escorpião'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-8704549190801814676</id><published>2009-07-01T10:21:00.000-07:00</published><updated>2009-07-01T10:25:52.348-07:00</updated><title type='text'>A Carta de Aniversário e Outras Coincidências</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Meu filé, que não só hoje, mas que você tenha muitos momentos felizes ao longo da sua vida. Desejo também maturidade para saber lidar com os momentos difíceis por que não sou boba de desejar que não tenha dias ruins. Eles são necessários até para valorizarmos os bons momentos. E desejar toda felicidade do mundo parece pequeno tendo em vista o que vivemos naqueles dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria tanto estar com você hoje! Iria inventar um bolo de queijo e tomate, pra gente comer tomando chá de pêssego na rede. Ficaríamos contando piadas sem graça um para o outro. Eu iria cozinhar para você, dançar para você, cantar para você, pintar um quadro para você, fazer um mosaico para você, para você, para você, para você, para você, meu amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria escrever uma coisa que gostasse tanto, mas tanto, que quisesse decorá-lo, devorá-lo, e que quando declamasse se lembrasse dos meus olhos de faróis. A verdade, é que queria escrever um texto tão bonito quanto os seus. Você me fez dançar tantas vezes com suas palavras que se você soltasse a minha mão eu flutuaria. Seus textos estão comigo, tão sempre e tão perto do meu afago, mas sem tuas mãos, faltam-me as cores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria te oferecer um casaco de horas felizes com o gosto do meu corpo naquela noite em que nos abstemos da distância e gravamos em minha pele, a nossa eternidade. Você veio e deixou uma cicatriz tão profunda, um cheiro tão intenso, mas tão intenso que por muito tempo, sei que saltará aos olhos de quem puder me ver nua. Só deveria caber a você me ver assim. Eu não quero ser tomada por mais ninguém, meu amor. Queria poder me guardar, como estou hoje, intacta para o seu afago, trêmula para o seu toque. Nunca vou te esquecer, e morrerei de saudade daquele dia em que minha vida se desmanchou em tua boca. Pretendo usar aquele vestido leve e florido toda quarta-feira, vestido que teve a honra do teu toque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma tentativa de viver tudo de novo, eu que fico tentando lembrar que eu já soube viver sem você, mas não consigo. Como acho que já te disse, você foi o primeiro dia do resto da minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pra sempre vou ser sua.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-8704549190801814676?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/8704549190801814676/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/carta-de-aniversario-e-outras.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/8704549190801814676'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/8704549190801814676'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/carta-de-aniversario-e-outras.html' title='A Carta de Aniversário e Outras Coincidências'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-4494076506686528908</id><published>2009-07-01T10:14:00.000-07:00</published><updated>2009-07-01T10:18:30.521-07:00</updated><title type='text'>O Fogo</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;O fogo começou assim, como tudo mais naqueles dias: como num sonho. Ela perguntou – &lt;em&gt;Está sentindo cheiro de queimado?&lt;/em&gt; – e ele balbuciou afirmativamente, mas nem foi averiguar. Qualquer coisa que não fossem eles, não importava naquele momento. As pétalas de rosas vermelhas espalhadas pelo chão desde o primeiro dia estavam secas, e eles nunca poderiam imaginar que se incendiassem como papel crepom ao contato do fogo, do pavio de uma das velas que teimou em permanecer aceso mesmo quando a cera vermelha se rendeu exausta desistindo das linhas retas, tornando-se um corpo disforme. Estavam nus, estirados na cama, e também exaustos como as velas. Mas, não disformes. Estavam entorpecidos. De gula, de luxúria, de devassidão. Estavam entorpecidos por um amor implacável, que lhes corrompia a existência. Enquanto seus corpos se trançavam e fundiam, suas almas valsavam em puro deleite. Não tinham relógio, as horas haviam se perdido, assim como o sentido do mundo que existia lá fora. Para os dois, o universo se resumia à aquele quarto e às aparições intrusas do Sol, da Lua e de sua corte de estrelas. Mas não contavam. Haviam se amado não sei quantos dias e noites, haviam se amado não sei quantas vezes e de todos os jeitos possíveis. Mal se alimentavam, a não ser com beijos, ou qualquer coisa que não fosse sólida o bastante para se espalhar pelo corpo: da pele à boca; da boca à boca; da boca à pele. &lt;strong&gt;Só se alimentavam de coisas que estivessem no quarto, e que pudessem ser esparramados por seios, membros e coxas um do outro, e devorados sobre a cútis como iguaria inestimável.&lt;/strong&gt; A pele, alimento, o corpo, alimento, o gozo, alimento. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;O calor do fogo demorou a ser percebido pelo casal, já que permaneciam úmidos, banhados de saliva e suor, lavados a lambidas e mordidas, besuntados de gozo e secreção.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Abriram os olhos, e trocaram olhares brilhantes pela última vez, quando perceberam as labaredas no lençol, também vermelho. E sorriram em cumplicidade. Não falaram nada. Às vezes era assim, não falavam, se adivinhavam, e pensavam a mesma coisa, ao mesmo tempo. Mesmo quando estavam separados. Recordaram, cada um com sua imagem, da última vez que haviam deixado o quarto, para caminhar na praia e tomar água de coco. Sentados, olhando o mar sem fim, lembraram que aqueles dias não eram para sempre. Sabiam que teriam que voltar para suas famílias, para seus empregos, para suas vidas, milhares de quilômetros separados um do outro. Ele a abraçou, e sussurrou no ouvido dela: – Para ser tudo perfeito, o mundo deveria acabar agora. E a beijou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinzas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Do hotel todos os funcionários e hóspedes se salvaram, com exceção ao estranho casal, que há dias permanecia trancado no quarto. Nos restos de cinza, entre os escombros do prédio, os bombeiros curiosamente encontraram dois corações que teimavam em pulsar. Ainda sangrando.&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-4494076506686528908?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/4494076506686528908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/o-fogo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4494076506686528908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4494076506686528908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/07/o-fogo.html' title='O Fogo'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-5843114037061029004</id><published>2009-06-30T11:34:00.000-07:00</published><updated>2009-06-30T11:38:06.052-07:00</updated><title type='text'>Parêntesis para outra coisa bobinha</title><content type='html'>&lt;em&gt;( O presente de Natal )&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Não podemos ficar mais juntos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Eu sei.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Não diga mais que me ama.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Não digo, mas eu te amo. Você sabe disso. Vou te amar para sempre.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Escolha qualquer mulher, vá viver esse seu amor com outra mulher, uma que possa receber esse sentimento imenso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Escolher qualquer mulher?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Sim, eu te dou. Eu te dou uma mulher, te dou a mais bonita. Você gosta de ruivas não? Eu te dou uma ruiva...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Sabe que o que me encanta é muito mais que a beleza...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Sim, sim... Você gosta de mulheres inteligentes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Também.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Te dou, escolhe, uma mulher bonita, uma mulher inteligente, escolha, eu te dou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Mas ela tem que saber usar as palavras...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Sim, você e sua obsessão pelas palavras! Bonita, inteligente, que saiba escrever, conversar... sim, escolha, uma poetisa, uma romancista, uma jornalista.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- E o sexo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Ah, sim... tem que ser daquele jeito que você gosta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Você sabe como eu gosto, do mesmo jeito que você gosta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Eu sei... Eu te dou essa mulher, de qualquer parte do mundo, que seja bonita, que seja inteligente, que saiba escrever, que faça sexo...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- E que seja atenciosa também, que se preocupe comigo, que compartilhe meus sonhos e que me ame o maior amor do mundo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Está certo, está certo... Peça, a qual você quiser.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Qualquer mulher? Pode ser atriz? Modelo? Esportista?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Qualquer uma, eu te dou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Pode ser estrangeira? Pode ser presidente de alguma república? Pode ser rainha? Pode ser rica?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Pode me pedir, eu te dou, seja ela quem for.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- De qualquer idade?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Ninfeta, coroa. O que você quiser. Eu te dou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Mesmo comprometida?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- A mulher que você escolher.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Sem nenhuma restrição, de qualquer lugar do mundo?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Sem nenhuma restrição, peça e eu te dou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Qualquer uma, do universo inteiro?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Sim, qualquer uma. Pode pedir.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Eu quero você.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-5843114037061029004?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/5843114037061029004/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/parentesis-para-outra-coisa-bobinha.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5843114037061029004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5843114037061029004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/parentesis-para-outra-coisa-bobinha.html' title='Parêntesis para outra coisa bobinha'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-144130594014349840</id><published>2009-06-30T11:19:00.000-07:00</published><updated>2009-06-30T11:22:36.622-07:00</updated><title type='text'>O nome</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Senti o cheiro inconfundível e inebriante do seu perfume caro espalhado no pescoço. De olhos bem fechados, farejei a carne nua como um animal sedento de gozo. Lambi a pele que se fazia quente ao toque da minha língua. Meus dedos, que antes moldavam a sua forma, procuraram os cabelos negros, e deslizaram graciosos por eles, até o final do fio mais comprido. Foi que a palma da minha mão encontrou a textura do cetim vermelho que se esparramava na cama com a nossa eterna promessa das cores. Sorri. E chamei seu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, não era você. Não era você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era você.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-144130594014349840?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/144130594014349840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/o-nome.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/144130594014349840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/144130594014349840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/o-nome.html' title='O nome'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-1883495691729975188</id><published>2009-06-30T11:00:00.000-07:00</published><updated>2009-06-30T11:04:19.502-07:00</updated><title type='text'>Lírio, uma história triste</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Lírio era apaixonado pela Razão. Seus dias ficavam sempre iluminados e divertidos quando a Razão lhe aparecia com sua saia rodada, com seus pés descalços e com seu riso incontido. Lírio adorava vê-la dançar no gramado, ela dançava dancinhas engraçadas, e lhe dizia as coisas que sempre lhe pareciam sábias. De vez em quando a Razão trazia uma amiga, a Inspiração, e os três juntos faziam as coisas mirabolantes, as mais bonitas que já foram feitas com letras e cores.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Mas um dia a Razão, coitada, avisou que teria partir para outro condado. Lírio ficou triste. A Razão não sabia se voltaria, mas pediu que não a esquecesse. Lírio disse que a esperaria, já que a Razão lhe presenteara com os melhores dias de sua vida. Esperaria mil anos até. A Razão, ainda lhe deu uma blusa de gola alta, e disse: "Esta blusa se chama Saudade. Ela aperta um pouco o peito quando o coração bate, mas é só por que a gente ama". E disse ainda: "Não se esqueça de mim, não me deixe esquecer de você". E beijou a boca dele num beijo roubado antes de ir embora. Lírio prometeu a si mesmo que nunca abandonaria a Razão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Foi que, uma outra começou a dar as caras nas redondezas, o nome dela era Incompreensão. E a Incompreensão começou a sussurrar a ele coisas no ouvido. No começo, falou que a Razão de nada valia. Depois imaginou histórias e distorceu as palavras, e contou que, ele havia perdido a Razão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Lírio não acreditou, ainda usava a blusa da Saudade, que lhe apertava o peito todos os dias. Então, a Incompreensão se ofereceu para cuidar dele. Passou a alimentar Lírio. Disse que ele andava meio magro e abatido, ele estava cabisbaixo demais e ela que iria ajudá-lo. Lírio não viu nenhuma maldade nisso, já que lhe faltava a Razão para preencher os dias, e ele, como qualquer um, gostava de receber atenção. Foi que Lírio engordou, e quando isso aconteceu, a blusa da Saudade apertou mais e mais, e apertou também o pescoço, sufocando-o de vez em quando. "Está vendo?" bradou a Incompreensão: "Esta blusa não é a da Saudade, é a do Abandono". E explicou que a dor do Abandono é diferente: machuca e sufoca por que é feita da dor daquelas coisas que não tem mais volta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Lírio já não sabia em quem acreditar, nas palavras bonitas da Razão? Ou nas afirmações levianas da Incompreensão? Foi que a Incompreensão trouxe uma amiga para convencê-lo, a mais volátil de todas: o nome dela era Raiva.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;A Incompreensão e a Raiva falavam juntas ou em separado com ele, falaram por um dia inteiro. Às vezes faziam-no escrever coisas grosseiras. Às vezes gritavam. E ele já não sabia mais o que pensar. Elas, agora lhe diziam as palavras de forma graciosa. Já era quase noite quando, seduzido pela Raiva e pela Incompreensão, Lírio finalmente acreditou que havia perdido a Razão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;A Raiva, voltou à imponência megalomaníaca, disse que ele deveria pegar o seu machado favorito. E ele assim o fez. A Raiva foi além, disse que ele tinha que usar o machado para machucar todas as coisas que lhe estivessem à frente, disse que era sua obrigação destruir todos os presentes que havia ganho da Razão, inclusive, os melhores dias da sua vida. Mas era tão de noite, e o céu estava tão nublado, sem estrela e sem lua, que ele não podia ver. Mas a Raiva tratou de esclarecer que enxergava no escuro, e que lhe guiaria os golpes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Foi assim, cego, que Lírio, vendo pelos olhos da Raiva, destruiu as coisas mais valiosas que possuia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;No dia seguinte, logo no alvorecer, a Razão apareceu, e viu tudo destruído. E ficou triste, de uma tristeza imensurável. Lírio, que não contava com aquela súbita presença, tentou se justificar. Procurou a Raiva e a Incompreensão, mas elas já não estavam lá. Sentiu-se patético. Juntou os pedacinhos dos melhores dias da sua vida numa caixa amarela, e quis presentear a Razão, como um pedido de desculpas. A Razão aceitou o presente e as desculpas, mas disse que não podia mais dançar para ele, que tão volúvel, deu ouvidos a Incompreensão e a Raiva. Lírio não tinha o que fazer, para variar, a Razão estava certa. E a Razão foi embora. Para sempre.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Lírio escreveu um livro cheio de dores e ainda usa aquela blusa chamada Saudade.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;A Razão encontrou o Amor, com quem foi viver numa cidade a beira de um rio que nunca havia parado de correr. Mas guardou no fundo do armário a caixa amarela, com os melhores dias da vida de-Lírio.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-1883495691729975188?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/1883495691729975188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/lirio-uma-historia-triste.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1883495691729975188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1883495691729975188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/lirio-uma-historia-triste.html' title='Lírio, uma história triste'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-183124605817607226</id><published>2009-06-30T10:51:00.001-07:00</published><updated>2009-06-30T10:51:53.638-07:00</updated><title type='text'>Quarta-feira</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Hoje é quarta-feira. As duas vezes em que nasci foram numa quarta feira. Da primeira vez, gritei e chorei para o mundo. Da segunda, gozei e sorri. Na primeira vez fui expelido por uma boceta em sangue numa maca fria de lençol azul pálido. Da segunda, fui engolido por uma boceta encharcada numa cama quente em cetim vermelho. A primeira boceta era da minha mãe. A segunda, de uma puta. A mãe me deu a vida. A puta, os melhores dias da minha vida (depois me arrancou tudo: – até os dentes que me faziam sorrir). A mãe me deu a luz. A puta me deu as trevas. A mãe me disse para nunca confiar nas mulheres. Nem mesmo nela, que era mulher. Pois nenhuma mulher é inteiramente responsável pelos seus atos. A puta me disse para lhe dar meu coração. Que ela o cuidaria, e que jamais causaria dano algum. A mãe disse que eu deveria ler grandes livros. A puta disse que eu deveria escrever grandes livros. A mãe afirmou que se um homem astuto tivesse boceta, ele dominaria o mundo. A puta tinha boceta. A mãe me ensinou que o dinheiro é o melhor amigo do homem. A puta me ensinou que o caralho é o melhor amigo da mulher, mas se ele possuir dinheiro vai ser melhor. E se não tiver cobranças, ciúmes ou posse, melhor ainda, desde que esteja lá, duro e irresoluto para quando ela necessitar, por instinto ou vaidade. A mãe explicou que um homem não deveria fumar, não deveria beber e nem demonstrar suas dores. Mas se o fizesse, fizesse com sensatez. A puta explicou que limite é covardia. A mãe limpou minha merda, me deu remédios quando caí doente, me ensinou as primeiras letras. A puta cuspiu na minha cara quando lhe pedi um último beijo. A mãe disse que um homem não pode chorar. A puta disse que um homem não pode chorar. A mãe me amou do dia em que me pariu até o dia de sua morte. Morreu viúva solitária, surda e cega, num asilo no interior, longe dos filhos. A puta me amou do período em que a fodi até o dia em que perdeu o interesse, como quem cansa de uma capa velha de chuva. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Não lembro o nome da minha mãe. Da puta, não consigo esquecer.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-183124605817607226?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/183124605817607226/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/quarta-feira.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/183124605817607226'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/183124605817607226'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/quarta-feira.html' title='Quarta-feira'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-7369789396292293107</id><published>2009-06-30T10:16:00.000-07:00</published><updated>2009-06-30T10:40:40.580-07:00</updated><title type='text'>A ciranda</title><content type='html'>&lt;em&gt;(ou 13 vezes ou Sobre o ridículo e o patético)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Deixa o gosto de vômito passar para que eu possa beijar novamente a sua boca.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;I.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo, sua filha da puta". Ele disse, lambendo com sangue o beiço frio e salgado de lágrima.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;II.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo" ela disse ao telefone. A voz soou trêmula porque falava chorando. Ele ouviu irredutível e se prostrou em impenetrável silêncio, exalava na respiração todo o pesar do universo. As lágrimas escorriam brilhantes pelo rosto como diamantes que lhe sulcavam e rasgavam a pele. Ela, do outro lado da linha, do outro lado do continente, repetiu uma vez soluçando em desespero, e repetiu de novo, e mais uma vez: "Caio, fica comigo, por favor". Ele olhava para o céu ensolarado segurando o celular, enquanto um turbilhão de pensamentos explodia em sua cabeça tal qual um um mar revolto arrebentando em rochas pontiagudas. Procurava as palavras certas, a atitude certa. Sabia o que sentia, sabia desde o momento em que a conhecera, só não sabia o que fazer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Você sabe o que está me pedindo?".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Agora era ela que se calava. Cada palavra, cada gesto, cada suspiro estava impregnado de uma dor intensamente humana, a dor da falibilidade. Nenhum dos dois estava preparado para errar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Beatriz, você carrega no ventre o filho de outro homem."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Diz que ainda me ama... diz...", ela insistia.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Por fim, ele suspirou e falou: "Você sabe".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Diz que me ama... diz... preciso muito ouvir isso, eu preciso..."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Sinto muito."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;III.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo" ele disse, sorrindo, com os dedos emaranhados nos cabelos longos e negros. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Ama porra nenhuma..." ela respondeu tão feliz, que a felicidade não lhe cabia no rosto, "... você só quer me enrabar de novo." Riram os dois. Nus, com as pernas enroscadas e as partes ainda lambuzadas de porra, saliva e chantilly.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Esse foi o melhor presente de aniversário da minha vida, aliás, esse foi o melhor dia da minha vida" ela disse. "Vai ser difícil você se superar no próximo encontro, nos próximos aniversários..."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Será que no seu próximo aniversário a gente vai estar juntos?"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu não sei, meu Caio, meu amor. Só meu. Me promete uma coisa? Não importa o que aconteça, não importa se a gente estiver junto ou não... Por favor, não esquece meu aniversário, nunca. Acho que vou morrer se um dia você esquecer meu aniversário."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;IV.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo..." ela disse.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Não, não conheço."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"É uma música do Chico."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Chico César?"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ela riu, depois sussurrou no ouvido dele: "Não, seu bobo. Chico Buarque. Ouça essa música, está bem? Me lembra da gente".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;V.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo" ele disse segurando a mão dela entre as dele. "Se eu tenho uma certeza nesse mundo, é do que eu sinto por você. Para ser sincero, nem sei ao certo se existe mundo, se que existe ar, se existe vida ou oxigênio, ou Deus, ou Exu, nem sei se estou vivo ou se você é um personagem imaginário que inventei para o livro da minha vida. Mas, o que sinto por você, Beatriz, disso eu tenho certeza. É a coisa mais bonita que aconteceu comigo, a mais intensa, a mais louca. A mais única.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Só tenho medo de te perder, e pensar que não fiz nada para evitar isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Só tenho medo de te perder, e pensar que não fiz nada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Só tenho medo de te perder.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Justo eu, que não tenho medo de nada."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Uma lágrima vacilante deslizou pelo rosto dela. Os olhos brilhavam novamente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Mas, eu estou..."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"É do seu marido, você é casada, poderia acontecer a qualquer momento e em nove meses, isso passa".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Você..."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu vou permanecer".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Beijaram-se como dois estranhos fariam pela primeira vez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;VI.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo, moço bonito. E estou morrendo de saudades..." dizia a voz gravada na secretária eletrônica. Era a voz dela, levemente embriagada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Liguei para dizer que fiquei pensando na gente neste feriado. Na entrega dos corpos. Na existência do amor, na dualidade de tudo isso. Além de me comer bem pra caralho, você ainda me bota pra pensar. Eis o homem da minha vida... Tenho dormido bastante esses dias todos. Hoje acordei as nove, depois cochilei à tarde. Fui ao cinema sozinha e cheguei às dez da noite. Deitei, mas acordei depois de um pesadelo. Cá estou, sabe lá Deus que horas vou dormir de novo. Meu marido está viajando, você está viajando... espero... ah, nem sei por que estou ligando, espero que você apague esta gravação sem ouvir...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Caio, você já procurou por algo, mesmo sentindo que não vai encontrar? É assim que me sinto assim desde o dia que nos encontramos naquele quarto. Aquele dia que te encontrei. Aquele dia que me perdi completamente de tudo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Não é justo, não é mesmo. Desculpe se eu me pareço confusa e chorosa... eu vou deixar sair... Depois, caso eu te machuque, peço de antemão que até desconsidere. Estou com uma taça de vinho aqui do lado e ouvindo Chico Buarque, estou ouvindo a nossa música.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Mas é verdade. Eu me perdi do meu mundo quando eu te conheci. Estou casada há quase três anos, e como você disse, meu marido cuida bem de mim. Bem até demais. E eu sempre fui muito grata a isso. Eu o amava, porque ele me amava. Eu tinha certeza absoluta de que era com ele que eu iria ter filhos, criar cachorros, fazer viagens, constituir família. O sonho americano.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Aí aparece você e fode com tudo. Todas as minhas certezas, convicções, dogmas. Porra, porque você fez isso? Você destruiu o meu castelo cor de rosa. Eu por vezes odeio mesmo você por ter me feito acreditar no amor. Na paixão. Em alma gêmea. Em uma só alma.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;A mim já estava de bom tamanho ver meu marido como o grande amigo que iria dividir a vida. Agora isso já não me basta. Eu fiquei gananciosa, quero esse seu amor todinho em letras maiúsculas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Sabe, a grande verdade é que você fodeu com a minha vida. Você me tirou o controle. Agora é você quem manda. Merda admitir isso. É só porque tomei vinho que estou dizendo isso. Eu preciso ter o controle. Agora é tarde. Eu me fodi.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Se eu não ficar com você, vou passar a porra do resto da minha vida arrependida. Imaginando como teria sido se... se você fosse meu... se você viesse pra mim... se eu tivesse um filho seu... se eu fosse sua mulher....Eu prefiro mil vezes me arrepender depois de quinze, vinte anos de ter casado com você e te odiar pra sempre do que passar o resto da minha vida imaginando como teria sido...E é o que vai acontecer se um dia não ficarmos juntos. Eu passarei o resto da minha vida arrependida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Não é brincadeira Caio, é a minha vida. Ando tão perdida, tão confusa. &lt;em&gt;Game-over&lt;/em&gt; pra mim."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;VII.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Eu te amo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Não importa mais, as palavras não fazem mais sentido.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Então diz que não me ama que eu sumo da sua vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Elle flotte, elle hésite, en un mot, elle est femme*.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Eu não te amo mais.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ffffff;"&gt;* citação de Jean Racine&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;VIII.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo". Assim começava a carta que ela escreveu para ele quando não havia mais esperança. A letra era a mesma, pequena e cuidadosa. Já não havia corações pingando a letra "i", tinha o mesmo perfume de sempre, e continuava assim: "Eu sempre amei você. E da forma mais doce desse mundo inteiro. Sempre tive um ideal de homem completo, daquele que me faria carinho, acharia graça das minhas idiotices, que fizesse loucuras por mim, fosse inteligente, bonitão, charmoso, engraçado. E aparece você, me oferecendo tudo de mais lindo e precioso nesse universo. Não quero aqui fazer uma ode a tudo que vivemos... Tudo se tornará pequeno demais perto da magnitude que foi aquele mar de sensações que compartilhamos. A expectativa da tua presença, os passeios, os jantares, a brincadeira com as ondas, enfim, nós sabemos o que vivemos. Tudo que vivemos. Você estava lá quando eu perdi o bebe, não há nada no mundo que pague isso que você fez por mim. Mas vai ver que o destino quis fazer da forma que nos trouxesse menos problemas. Se meu marido tivesse terminado comigo, talvez eu ficasse sozinha e talvez você se sentisse impelido a largar sua vida pra ficar com essa desajuizada aqui. Talvez a gente nem tivesse dado certo. Só seria um sofrimento maior para mais pessoas.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Meu marido recebeu uma carta anônima, você sabe. Falando de mim, falando da gente. A carta dizia que eu era uma devoradora de homens, que eu estava te usando e te dispensaria em uma semana, um mês, um ano e que você seria um dos quinhentos homens pelo qual eu me envolvi e joguei fora. Quem escreveu a carta queria a minha morte. Enfim, verdade seja dita, de alguma maneira conseguiu. Eu contornei a situação, expliquei a meu marido que era intriga de uma mulher invejosa e mal-comida, mas o resultado disso é que não podemos mais nos encontrar. Eu não quero te dar esperanças. Não posso mais ser sua amante.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Prometo que não vou aparecer na tua vida pra atrapalhar de novo. Só escrevi para te dar uma satisfação. Um pedido de desculpa, implorar que me entenda, eu nunca te abandonei, eu vou sempre ter uma lembrança doce de você, eu só queria te pedir que não tenha raiva de mim. Não fui eu quem escolheu. Mas está muito difícil. Eu preciso consertar tudo, aparar umas arestas. Juro que eu queria continuar com você como se nada tivesse acontecido, mas eu não consigo. Tudo na minha vida mudou. Agora percebo que eu sou menina demais ainda pra lidar com esse tipo de coisa. Estou cansada. Preciso parar tudo e começar do zero. Quantas vezes a gente se vê vivendo mentiras e deseja acabar logo com elas? E quantas vezes essas mentiras não ficam martelando na nossa cabeça, lembrando que a sua felicidade momentânea é uma mentira também? Então, agora ou eu conserto meu casamento de vez ou eu termino tudo e fico sozinha mesmo. Não vou ser a primeira e nem a última e nenhuma mulher morreu por isto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Não se pode indefinidamente esconder toda sujeira debaixo do tapete.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;E eu só queria sair dessa espiral de falsidades, decepções, medo, insegurança, pessoas erradas, tristeza. E nadar até a praia e não ter mais forças para andar.No fim não passamos de pedaços de carne expostos no açougue. As coisas, sentimentos, não valem nada, nada importa além da carne.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Guarde esse beijo meu como aquele último que te dei, roubado naquela fila do aeroporto.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;IX.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo..." Ele respondia a carta. " ...mas não consigo aceitar passivamente essa sua decisão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Você sempre me fez acreditar na sua força e no quanto você era fodástica, no quanto era corajosa e que enfrentaria o mundo por suas crenças. Você se mostrava tão senhora de si e do seu destino. Mas agora, quando precisou mostrar sua resistência, sua opção foi agir tal qual uma menininha covarde, se refugiando numa redoma encantada.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Se você for embora, não vou entender e provavelmente farei ou direi coisas para que me odeie, e provavelmente vai me odiar. Porque é assim que eu lido com a dor para não morrer com ela. Se eu fizer por destruir a gente, não será por ruindade. Será para sobreviver.E não se preocupe, se você for, não vou procurar você em outras bocetas. Vou apagar você da minha existência, já que você decidiu arbitrariamente por me apagar da sua.".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;X.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo e começo a desconfiar de que isso já se torna insuficiente pra demonstrar o quanto gosto de ti" dizia o bilhete que ela havia escrito um dia e que ele encontrou tanto tempo depois, no bolso da camisa vermelha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;XI.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo", ele falou pelo telefone, " ... amo mais que tudo nesse mundo".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ela respondeu irritada: "Pare com isso! Pare com seus dramas! Você quer dar a tudo na sua vida esse fim de novela? Não percebe que nossa história já acabou? O que vivemos foi há tantos anos. Daquela vez eu fodi meu casamento e sobrevivi à separação, agora estou com outro cara, outro cara. Quero uma chance de ser feliz. Não vou sacanear ele, não como eu fiz com meu ex-marido, será que você entende isso?"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Isso não é drama. Tudo isso tem me machucado demais, não agüento ouvir você falando desse cara, não agüento saber que ele está vivendo as coisas que você havia prometido viver comigo. Era nosso sonho, nosso destino, você trocou o personagem. Era para ser comigo. A história era minha também..."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Caio, você parece desesperado..."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Só a esperança e o desespero movem o mundo, menina. E você arrancou de mim toda a esperança."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Pare com isso, pelo amor de Deus... Caio, você está louco? Se quiser se matar, se mate, mas não o faça na minha frente. Eu tenho minhas próprias dores para suportar. Se quiser cortar seus pulsos, que corte, só não me obrigue a beber o seu sangue".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu não consigo mais, Beatriz... Vou sumir da sua vida para recuperar a minha".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Tem certeza, Caio, do que está me dizendo? Por que quando você voltar, eu não vou estar aqui. Você já não sabe onde eu moro. E eu vou trocar o número do telefone e você nunca mais irá me encontrar. Não vou estar nunca mais para você".&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu vou estar, se você me procurar, sempre no mesmo lugar."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Por que está me dizendo isso? Para eu ir atrás de você? Sinto muito. Eu nunca ando para trás. Algo mais a dizer?"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo mais do que deveria"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"É. A gente sempre erra na mão mesmo."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Sinceramente, espero que você morra infeliz com esse seu orgulho imbecil entalado no rabo."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ele desligou o telefone com tanta raiva que quebrou o aparelho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;XII.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo, Beatriz," ele escrevia com a mão trêmula no maço de cigarros, ensaiando uma carta apaixonada que um dia enviaria para ela. Em sua lógica cartesiana a tal carta haveria de trazê-la de volta, sem ranhuras, sem fissuras, sem ressentimentos. Era assim que ele passava às noites, geralmente no bar, bebendo até trançar as pernas pegando o ouvido alheio emprestado para cantar suas lamentações e amaldiçoar a existência das mulheres, a mais perigosa de todas as espécies, ou até conhecer alguma vadia que lhe servisse de recipiente de porra. A beleza de outrora fora substituído por um ar desgraçado e marginal. Fodendo ou bebendo, era nela que ele pensava e era com ela que ele sonhava, e esperava pelo dia em que a reencontraria, e que finalmente, seriam felizes juntos, sem amarras e sem pressa, como um poema dedicado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;XIII.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo" foi a ultima coisa que ela conseguiu dizer enquanto a lâmina fria da faca penetrava por de baixo da costela, atingindo e rasgando o coração.(Ele imaginava que para tocar o coração dela novamente precisaria agir drasticamente, com força e estupidez, e assim o fez, rasgando a carne, triturando ossos, arrebentando músculos e vísceras).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;"Eu te amo, sua filha da puta". Ele disse, lambendo com sangue o beiço frio e salgado de lágrima.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;A mão dele se banhava do líquido rubro e viçoso. "Era para ser assim, minha pequena. Sempre foi assim, era para morrermos juntos. Eu e você. Aproveite a dor, era isso que você desejava, não? Sentir a dor? Eis a dor. Não precisa mais fingir. A dor é tão bonita quanto você imaginava?" Os olhos de Beatriz já não brilhavam mais, tornavam-se opacos, como uma noite enevoada. Ele fechou as pálpebras dela, guardando só para si a lembrança dos olhares iluminados. O corpo dela desabou na calçada de cimento. Mesmo inerte era tão linda e possuía a mesma formosura de outrora, a mesma formosura de sete anos atrás, quando um dia se conheceram. Os longos cabelos negros se esparramaram pelo chão. O sangue brotava do corpo tal qual uma lata de tinta vermelha lentamente derramada. Ele a via ali tão bonita, e a imagem de repente lhe pareceu uma pintura impressionista. Pensava que a morte caía tão bem a ela, como os vestidos ou a falta deles, como todos os poemas e os palavrões que ela pronunciava na beleza ou na ausência de pudor. A morte caia tão bem a ela quanto todos os extremos que carregava tal qual uma sombrinha florida em seu pomposo desfile pela vida. Inebriado pela beleza da cena, com a faca respingando, rasgou a blusa branca que a cobria, expondo os seios. Esfregou o rosto, beijou-os, sugou-os, lambeu-os como se deles tentasse resgatar a partitura de uma música há muito tempo tocada e nunca mais ouvida. Rompeu o cinto e arriou as calças, besuntou o dedo em sangue e lubrificou a boceta ainda quente. A amaria pela última vez.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Ele se fez nu, e a penetrou. "Lembra? Uma vez quisemos morrer fodendo. Era assim que você desejava, minha menina?" Ele a tocava, a apertava e chorava enquanto sentia o corpo se tornar cada vez mais rijo e frio. Queria poder fotografar aquele instante para, de alguma maneira, mostrar a ela um dia: o chão cimentado, os cabelos esparramados, a foda, a pele morena dela, a pele branca dele, ambas salpicadas de sangue. Imaginou que ela acharia bonito tudo isso, ela que gostava das intensidades, ela que era apaixonada pelo vermelho. Ergueu um pouco o tronco e enfiou a faca abaixo da costela, desta vez rasgando o próprio coração. Desabou sobre ela e beijou-lhe a boca. Morreu no instante do gozo.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-7369789396292293107?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/7369789396292293107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/ciranda.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7369789396292293107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7369789396292293107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/ciranda.html' title='A ciranda'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-7368809415553571779</id><published>2009-06-29T12:59:00.000-07:00</published><updated>2011-03-19T00:54:36.498-07:00</updated><title type='text'>A escritora</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Eu menti quando disse que não iria publicar aquele livro. Menti porque não queria que você soubesse. Eu o publiquei e fiz de nojenteza, de birra, de capricho. Confesso que meu maior receio é esquecer o que vivemos e acreditar apenas em tudo aquilo que está escrito, mas eu precisava desaguar. Você sabe que tenho meus acasos de raiva, mas que não sou assim, não essencialmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive que maneirar nas palavras ásperas para não te afogar numa piscina cheia de dejetos logo nos primeiros capítulos, o protagonista não morre no começo, mas é que eu não tinha idéia do que fazer com você. Eu queria me livrar do seu personagem porque até ele me machucava demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevi toda dolorida as suas aventuras, presenciei tudo, eu era a narradora daquilo, eu era Deus naquele momento e você tinha me magoado tanto na página 79...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode até parecer insanidade, mas não fui eu quem escolheu me abandonar naquela cidade estranha. Nunca viajei pra tão longe para chorar todo o meu choro revolto na frente de desconhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como escritora, eu achei que conseguisse ser a mulher mais fodástica do mundo, a mais comível, a mais irresistível, mas parece que seu personagem foi me dominando, me domando e eu mais uma vez não sabia o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí quando eu já achava que pior não podia acontecer, você me vem no capitulo 12 com uma mala querendo ganhar o mundo fora das minhas folhas. Você fodendo todas mulheres que eram as minhas amigas. Senti tanta raiva, me desculpe. Eu estava muito puta por ser a narradora de uma história que era minha e que eu não controlava mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você poderia ter me poupado de tudo, mas queria uma saída triunfal e foi passando por cima das minhas vírgulas e travessões, desrespeitando todos os meus parágrafos. Comecei o texto com a cena em mente: uma praia; um fim de tarde; uma lua menininha; livros espalhados num pano xadrez... Mas a sua escrotagem me fez correr feito uma idiota atrás de você naquela avenida, puxando tua mala enquanto os carros buzinavam tresloucados por causa da minha baixaria na faixa de pedestres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porra, você fodeu com tudo que era meu. Foi por isso que atrapalhei a tua vida e te dei tantos defeitos. Eu quis ferir o teu ego e não te deixar dúvidas que era você, então pus teu nome e sobrenome no meu personagem. Apaguei todas as suas qualidades. É por isso que o meu final espetacular reuniu um casamento com um ricaço que não era você, no mesmo dia em que fiz você bater o seu carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso. Eu menti. Menti dizendo que não ia publicar aquele livro porque eu não queria que você ficasse sabendo que a tua crueldade iria me render um best-seller e um apartamento em Paris.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-7368809415553571779?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/7368809415553571779/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/escritora.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7368809415553571779'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7368809415553571779'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/escritora.html' title='A escritora'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-5525220010150513547</id><published>2009-06-26T12:17:00.000-07:00</published><updated>2009-06-26T12:20:14.613-07:00</updated><title type='text'>Sobre Mortes</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;– Minha mãe me disse que os homens são todos iguais. Primeiro nos cortejam, nos elogiam, se deliciam com nosso corpo e nos instigam o gosto pelo pecado. Depois, arrebatam nossas almas, nossos sonhos, nossos corações. Quando tem certeza disso, mutilam nossos desejos, nos escondem do mundo e nos machucam. E procuram novos pecados para pecar, em outras mulheres. Ela me ensinou que todos os homens são assim, todos são iguais. E se é para ser igual, que ao menos seja rico o homem que eu escolher para ser meu. Fica mais bonito chorar entre diamantes do que de barriga vazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não sou assim.&lt;br /&gt;– Eu sei, você não é um homem para mim, você é um anjo.&lt;br /&gt;– Eu não sou um anjo, sou seu homem. Diz que eu sou seu homem, quero ser seu homem.&lt;br /&gt;– Você está pagando, digo o que quiser ouvir – ela sorriu – Meu homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que era um amor suicida, destituído de qualquer esperança de possibilidade, mas talvez fosse isso, a impossibilidade que me fascinava. A impossibilidade de uma mulher alheia, uma mulher da vida. Uma mulher de honorários. Uma mulher do mundo. Quando a amei? Como a amei? Foi na eloqüência do nosso primeiro contato, a conheci num retrato colorido pendurado em um painel, e paguei por ela, como quem compra uma roupa apenas apontando para um catálogo. Ela entrou assim na pequena suíte, de quimono vermelho, num salto alto enorme, que a fazia 10 centímetros mais alta que eu, em suas coxas roliças e marmóreas. Pele branca, e cabelos negros escorridos até a cintura. Ela sorriu, sua profissão era sorrir, ser agradável. Assim era a vida de puta. E assim ela veio, me propondo a tal massagem tailandesa. Eu assim disse a ela que pulasse essa parte, e que fossemos logo ao que interessava. Ela assim disse que tudo bem, que também preferia deste jeito. Foi assim, que a enlacei pela cintura, e a puxei até minha boca. E foi assim, assim que ela me disse: "Eu não beijo na boca".&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-5525220010150513547?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/5525220010150513547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/sobre-mortes_26.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5525220010150513547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5525220010150513547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/sobre-mortes_26.html' title='Sobre Mortes'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-1557971957315456949</id><published>2009-06-26T12:05:00.000-07:00</published><updated>2009-06-26T12:13:02.235-07:00</updated><title type='text'>A blusa amarela ( ou Das coisas leves )</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Havia uma década que não se viam. E se encontraram assim, casualmente, nos vagões prateados do metrô da cidade. Ele a pegou pelo braço, por que outrora era um tanto louco, e continuava assim. Ela olhou assustada. "Lembra de mim?", ele perguntou, com o coração retumbante. Ela disse que não. Não? Como não? Haviam se amado, se desejado, haviam se dedicado músicas e poemas. É certo que agora ele usava barba, mas de resto continuava tudo mais ou menos a mesma coisa. Assim como ela. O tempo havia sido generoso com ambos. "Você costumava me chamar de Anjo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu me casei.&lt;br /&gt;– Percebi a aliança.&lt;br /&gt;– E você?&lt;br /&gt;– Também – ela sorriu, erguendo um pouco a mão esquerda e abrindo os dedos, onde cintilou o anel dourado.&lt;br /&gt;– Agora podemos dizer que somos casados.&lt;br /&gt;– Mas não um com o outro. – riram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Continua escrevendo?&lt;br /&gt;– Não, não, aquilo era coisa de menina.&lt;br /&gt;– Mas você é a melhor escritora que eu já conheci.&lt;br /&gt;– Obrigada, mas parei. Precisava ganhar algum dinheiro. E você?&lt;br /&gt;– Eu ganho dinheiro escrevendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu me casei com o Heron.&lt;br /&gt;– Fico feliz em saber.&lt;br /&gt;– Você assistiu "Efeito Borboleta"?&lt;br /&gt;– Sim, eu gosto muito deste filme.&lt;br /&gt;– Penso nesta perspectiva, um pequeno fato que pode mudar tudo para sempre.&lt;br /&gt;– Um pequeno fato, um gesto ou uma palavra errada. É fascinante imaginar que a gente podia...&lt;br /&gt;– É, podia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que você escreve?&lt;br /&gt;– Não se preocupe, não é mais sobre você. – risos – Escrevo as coisas que preciso botar para fora para não morrer.&lt;br /&gt;– Interessante. Fiquei curiosa.&lt;br /&gt;– Qualquer dia eu te mostro. E vou querer a sua crítica mais cruel.&lt;br /&gt;– Minha leitura evoluiu muito e meus valores mudaram desde quando a gente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– ... me manda então, vou ser rigorosa. Me diga o quanto pode agüentar?&lt;br /&gt;– O quanto eu agüento? Pode falar o que quiser, sei que você não tem dó de mim. – riram.&lt;br /&gt;– Deixa eu te mostrar uma coisa – ele puxou a manga da camisa, e mostrou uma pulseira fina de prata que lhe dava duas voltas no pulso e que outrora fora uma gargantilha.&lt;br /&gt;– O que é isso?&lt;br /&gt;– É seu. Eu roubei de você.&lt;br /&gt;– De mim? Eu não lembro. Quando foi isso?&lt;br /&gt;– Foi naquele dia, quando nós mudamos tudo. Para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, ele teve um sonho. Sonhou que estava com ela, na cama, num dia ensolarado. Ela vestia blusa amarela e calça jeans. Estavam abraçados, com vários livros espalhados pelos lençóis. Não se beijaram, não se enroscaram. Apenas conversavam amenidades e ele ouvia a voz dela. E ouvia a gargalhada dela emoldurada por um sorriso espontâneo. Os cabelos compridos lhe escorriam pelo braço. Não era a carne esfomeada, era a alma satisfeita. E ele pensou que não precisava de mais nada. Só a calma e aquela presença. No sonho, mesmo sem dizer, tinham a certeza de que seriam um do outro e de ninguém mais. No sonho, tinham a certeza de que juntos seriam felizes. No sonho, só não tinham certeza se aquilo que era amor. Mas se fosse, seria eterno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensou que talvez o amor de verdade seja apenas isso, só pouco de paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;( Às sete horas, o despertador tocou e ele levantou apressado, mas com cuidado para não acordar a esposa; partiu para a editora carregando debaixo do braço os rascunhos datilografados do seu novo livro, dedicado à amante).&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-1557971957315456949?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/1557971957315456949/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/blusa-amarela-ou-das-coisas-leves.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1557971957315456949'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/1557971957315456949'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/blusa-amarela-ou-das-coisas-leves.html' title='A blusa amarela ( ou Das coisas leves )'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-2612184880224317278</id><published>2009-06-18T13:36:00.000-07:00</published><updated>2009-06-18T13:53:20.335-07:00</updated><title type='text'>Ela lê o mesmo livro. No mesmo lugar. Todo santo dia.</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Na pequena cidade os moradores testemunham o estranho ritual vespertino, que se repete diariamente, por anos a fio. Não lembram quando exatamente tudo começou e muito menos o motivo daquilo. Ela, que já em tenra idade economizava palavras, nunca mais falou. Onde mora? O que come? Alguns dizem que, para dormir, ela se embrenha na mata de madrugada e se banha nua no rio. Outros acreditam que ela é uma cortesã das casas baixas, outros ainda, afirmam que ela é um fantasma. Carrega sempre uma bolsa larga, de linho, que pousa ao lado do banco da praça principal. Chega quando o sol se deita e permanece ali, sentada. E faz assim, todos os dias, até no verão onde o sol, mesmo no entardecer, mostra sua pujança. E faz assim, dia após dia, com frio ou chuva. E lá fica, até o final da revoada dos pássaros, até o dia se derramar em noite, até os postes se iluminarem, até as estrelas respingarem cintilantes no céu em breu, até a Lua resplandecer prateada, até os grilos iniciarem sua estridente sinfonia, até os aparelhos televisivos se apagarem, até a algazarra do bar terminar, até ser tudo silêncio de novo e a cidade se esvair em sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum habitante da cidade lhe questionou a razão daquele ritual. Nem o padre ou o prefeito. Apenas a deixam lá. Inventando razões a seu respeito. A história se espalhou pelas redondezas, virou lenda, e a cidade passou a ser lembrada como a cidade da moça do banco. A moça, que lia o mesmo livro. No mesmo lugar. Todo santo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Oi, moça", disse o cavalheiro distinto e galante. Ela estava com 17 anos e nunca se sentira a muito à vontade naquela pequena cidade sem esperança – com pessoas cheias de manias e vetos – e logo se encantou com o sorriso de dentes perolados daquele homem há muito formado, alto, esguio, loiro de cabelos compridos e óculos escuros. "Oi", ela respondeu timidamente, abraçando contra os seios os cadernos escolares, que carregava todo fim de tarde após a aula. "Você é muito bonita, sabia? Qual o seu nome?" Ele tirou os óculos, exibindo os olhos de um castanho quase vermelho. Ela hesitou. A mãe lhe proibira de falar com gente de fora da cidade, mas aquele homem, aquele homem tão bonito e educado, parecia um artista perdido num pedaço esquecido do mundo... Além do mais, o que a mãe sabia da vida? A mãe era filha de roceiros, tinha ficado viúva logo quando ela nasceu. A mãe, perfeita carola, viva metida nos eventos da igreja e não permitia que a filha sequer assistisse a filmes no cinema. A mãe se chamava Rita, mas era conhecida, pela devoção por Nossa Senhora, como Rita da Virgem. E a ela, todos conheciam como "Maria. Maria da Virgem", disse, trançando as pernas. Ele riu. "Ah, Maria, todas as mulheres são Marias!" E gargalhou. Maria não viu naquela gargalhada o desdenho, pelo contrário, entendeu que ele a compreendia, que ela não queria ser mais uma naquele fim de mundo esquecido por Deus. Voltou o sorriso galante e o convite surgiu com a gentileza resplandecente de fábulas infantis: "Eu te pago um sorvete. Aceita, Maria da Virgem?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sorveteria, ele olhando nos olhos dela, como nunca antes haviam olhado, contou à formosa moça sobre a vida na cidade grande. Falou que havia trens que cruzavam pedaços de céu antes de se embrenharem no fundo da terra. Contou das luzes brilhantes, dos shopping centers, ali vendiam jóias, sapatos e roupas dos melhores tecidos, que fariam qualquer mulher parecer a rainha do mundo "ainda mais, uma moça tão linda quanto você", complementou. Ela estava impressionada, ouvia sobre um mundo que conhecia apenas nas novelas e que pensava que era apenas ficção. Ela se desmanchava em sorrisos e em olhares luminosos, digerindo e degustando cada detalhe como fazia com a taça do delicioso sorvete napolitano. Ele contou que, na cidade grande, havia uma rua só para bancos, outra que vendia só vestido de noivas, outra ainda, só para peças eletrônicas, e mais outra só para instrumentos musicais, e que ele mesmo arranhava um violão de quando em quando e escrevia poesia, só às vezes, ressaltou, quando estava inspirado. Aquele era um destes momentos de inspiração e logo tratou de rabiscar no guardanapo uma poeminha, de três, quatro linhas, exaltando a beleza dela, dela Maria. A poesia começava assim: Minha Maria...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A face de porcelana de Maria corou ao ler as letras tortas espremidas naquele guardanapo. Pouco sabia de poesia, mas achou aquele poema, dedicado a ela, o mais lindo do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração batia acelerado, a mão, tremia, e respirava com dificuldade. Maria se sentia entregue, à mercê. Maria estava apaixonada, estava amando um homem. Não desses molecotes franzinos que espalham pela cidade as coisas que aprontam com as moças, não isso jamais! Ela estava com um homem, um homem de verdade, de cujas têmporas brotavam alguns fios brancos no meio da cabeleira loira e pelos desabrochavam grossos no rosto, fazendo aparecer uma linha de barba a fazer. Um homem, o homem que lhe fora dado pelos céus para mudar os rumos da sua vida. Pela primeira vez, ela teve esperança. A esperança de sair daquela cidade pequena, a esperança de ver o mundo que ela apenas imaginava. O homem da sua vida, o... o... "Eu nem sei nome" ela sussurrou quase num pedido de desculpas, desviando pela primeira vez o olhar daqueles olhos que a hipnotizavam. "Meu nome? Meu nome é João, somos assim João e Maria, Maria e João".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela riu. Ele também, "Eu te amo, Maria" ele disse então, de supetão, e ela tremeu em espasmos, a perna não parava de mexer, o frio na barriga, a pele arrepiada, o coração explodindo. Se ela soubesse, poderia dizer que teve um orgasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Você não me conhece" respondeu a moça, recuperando a consciência. "Não preciso te conhecer, eu vejo seu brilho, seus olhares, eu vejo a sua alma iluminada. Hoje eu descobri a vida Maria, descobri a vida em seu sorriso de menina. Descobri a vida na brancura da sua pele, no rubor dos teus lábios vermelhos. Vivi meus dias alheio a tudo no mundo, vivi assim até hoje. Vivi como um cego, até encontrar teus olhos, Maria."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não disse, mas também o amava, amava sem razão, amava porque amava e tudo fazia sentido e assim era para ser. Eram almas gêmeas, ela uma menina, ele tão senhor de si, tão experiente... ele.. ele... "O que você está fazendo aqui, na cidade?", ela perguntou, confusa com a aparição daquele homem tão perfeito. Explicou que fazia parte de uma equipe de filmagem, era fotógrafo publicitário. Estavam filmando em uma cachoeira ali perto, disse que ele, como profissional, saberia reconhecer o talento das pessoas só de bater o olho, e que ela, se estivesse na cidade grande logo seria descoberta por algum estúdio, ou agência de modelos. Não era o tipo de fotos com que trabalhava, mas possuía bons contatos no meio, quando ela aparecesse por lá, poderia procurá-lo que ele haveria de indicá-la, e logo ela ganharia o mundo: Londres, Milão, Paris. Ela seria um sucesso, pena que ele está indo embora amanhã, senão ele mesmo a fotografaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Amanhã?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há palavras que possam descrever a sensação de desespero e angústia que lhe tomou a alma, as esperanças esvaíram-se, foi como se o mundo inteiro estivesse atrás de uma porta e bastava abrir para possuí-lo. Mas ao tentar abrir, a porta estava lacrada, com sete camadas de chumbo e concreto. Era a morte de uma vida que nem havia começado, sentiu seus membros amputados, seu corpo doer como se lhe espinhassem a pele, como se um murro lhe acertasse em cheio o estômago. Sentiu náuseas. A felicidade de súbito tornou-se tragédia &lt;em&gt;(nada do que foi escrito pode se comparar a uma ínfima parte do que ela realmente sentiu naquele momento)&lt;/em&gt;. Lágrimas escorreram dos seus olhos e ela repetia: "Não posso ficar sem você, não posso ficar sem você".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João a tocou pela primeira vez, segurou as mãos de Maria entre as dele. Já se fazia noite, a sorveteria estava preste a fechar, e coincidentemente a luz de néon do letreiro se iluminou a volta da cabeça dele, como se fosse uma auréola. Era um sinal, aquele homem era um anjo, que fora enviado aos confins do mundo para resgatá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria arrepiou-se novamente, o sentimento bom, o calor das mãos dele transmitia confiança. A olhou nos olhos. "Maria, podemos ter um ao outro, como você quer, como eu quero". "Sim, sim", ela disse, com a convicção de que entregaria sua alma, se ele pedisse. "Você, Maria, é o amor da minha vida. Não há futuro para nós nesse lugar, não há futuro para mim sem você, seu lugar é comigo, ao meu lado"."Sim", ela disse quando as lágrimas viraram sorriso e o sorriso, a esperança de uma vida. "Hoje à noite, você dorme comigo. E vai ser minha mulher para sempre".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das coisas que ela se lembra do quarto, o barulho da Polaroid foi o que mais a marcou. Foi como o início de um transe, o flash iluminou todo o recinto. A foto que ele bateu: os dois abraçados, como namoradinhos, ela sorrindo incontrolavelmente, marcando as bochechas com uma covinha de cada lado. Dele, pouco se via na foto, só o braço estendido, na pose do auto-retrato, e o peito vestido, onde ela estava com a cabeça encostada. Enquanto agitava a foto no ar, e a imagem ia surgindo, ele explicou que usava essa câmera para fazer a medição de luz, a marcação dos ângulos e checar os últimos detalhes antes de fotografar com a câmera analógica. Ela era todo sorriso, a felicidade era espontânea e extra corpórea. Estava tão feliz que irradiava alegria, jorrava luminosa resplandecendo a alvura da pele, pelos braços, pelo rosto, ela iluminava mais que o abajur do quarto. Até que ele disse “Tire a roupa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sorriso se perdeu, ela sentou num dos cantos da cama e obedeceu ao homem que ela amava. Ela confiava nele, e fez, cabisbaixa o que ele mandou. João se sentou ao lado e acariciou os cabelos dela, enquanto se revelava lentamente o corpo de menina moça bem desenhado, branco, infinitamente branco, por onde raios azuis de veia se fundiam. João nunca vira imagem mais casta. “Maria da Virgem”, ele balbuciou maravilhado com aquela pele macia, que ele começava a conhecer com as pontas dos dedos descendo pelas costas. Ela cruzava os braços na frente dos seios, como fizera antes, com os cadernos, mas não havia mais cadernos. Nunca estivera nua na frente de um homem. Na verdade, nunca estivera com um homem. João inclinava o corpo para trás, observando a alvura das costas, terminando no vinco que separava a bunda de Maria. Ele a beijou no ombro, e disse: “Tira tudo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela reparou que ainda estava de meias. Ainda sentada, com ele a seu lado, Maria colocou um pé sobre a cama, para tirar a meia, expondo seu sexo quase sem pelos pela primeira vez a ele. A sensação de júbilo que ela outrora possuía se desenhava no rosto dele, quando viu de soslaio o sexo rosado, delicado, na imensidão alva e macia do corpo dela. Um pé, depois o outro, despidos, brancos, delicados e pequeninos pareciam desenhados com uma curva francesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda tentava trancar os braços por sobre os peitos, quando, com as duas mãos, uma em cada ombro, João a forçou a deitar na cama. Ela arregalou os olhos, assustada. Ele a segurou nos pulsos, e num movimento em que parecia estar abrindo cortinas, afastou os braços delas colocando os seios para exibição. Surgiram mamilos de um rosa suave, quase sem bico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não dizia nada. Fechou os olhos e a boca com força. “É a primeira vez? É a primeira vez?” ele repetia olhando para ela, que estava com as pernas espremidas uma contra a outra e os punhos cerrados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não o viu nu. Mas sentiu o corpo dele pesar sobre o dela. Pensava que ele era homem, e que assim os homens faziam com as mulheres que amavam e que ela o amaria, como ele quisesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ergueu um pouco o tronco e abriu, com força as pernas dela. “Que maravilha, que maravilha” repetia agora. João molhou o dedo de saliva e introduziu na carne rosada do sexo de Maria. Ela quis gritar, mas não gritou. A mãe lhe dissera que gritar por dor é feio. Que gritar não ajuda a dor passar, e gritar não faria ninguém a sentir a dor por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim ela aprendeu a agüentar a dor, calada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria sentia alguma coisa forçar contra o corpo dela, mas... as mãos dele... estavam segurando seus pulsos, segurando com tanta força que os dedos ficariam impressos por dias na pele branca. Ela virava o rosto de um lado a outro, enquanto ele arfava e mordia o pescoço e os ombros alvos, dela. João se divertia provocando hematomas e vermelhidões desta maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sentia as coxas úmidas, com se tivesse se urinado. Mas era sangue. O sangue de sua pureza que lhe empapava as pernas. João ria, a vendo, daquela maneira, com os olhos e os punhos cerrados, e a pele branca salpicada de sangue, pelas coxas, pela barriga. Ele sentia o sangue quente da menina a lhe untar o sexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando, a virou de costas. Maria, já não mais resistia, agarrava-se ao lençol com o rosto mergulhado na fronha do travesseiro chorando um choro silencioso, um choro sem lágrimas ou som. Mesmo quando ele a penetrou por trás, besuntado em sangue, ela sequer gemeu. Uma respiração mais funda talvez. Com uma das mãos ele apertava um dos lados da bunda dela (que parecia tão pequena diante daqueles dedos enormes). Ele gemia, estocando, cada vez mais forte, cada vez mais fundo. Maria agüentava enquanto seu corpo era destituído da pureza, enquanto ela era experimentada em seus orifícios. Foi quando ele aumentou o ritmo e lhe jorrou entre as ancas. Ela sentia arder dentro de si o gozo do homem, o sangue lhe escorria aos borbotões pelo sexo, e um fio de sangue e gozo pelo ânus. Foi quando ela abriu os olhos e o quarto se iluminou num flash, ouviu um estalo. Seria o gozo de mulher?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João foi banhar-se. Maria ficou assim na cama, sentindo ardências. Sentindo o sangue lhe esvair lentamente. Ela respirava aliviada, pensando que agora que já era mulher, nem tinha sido tão ruim assim, que se isso era ser mulher, ela era e seria, e faria sempre isso para agradar o homem de sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João reapareceu, totalmente vestido. Disse que haviam deixado um recado na portaria, que ele teria que acordar cedo na manhã seguinte, pois as fotos publicitárias iriam ser refeitas por insistência do xarope do diretor. Então, que era melhor ela ir embora naquele momento, pois seria ideal ela descansar de uma só vez, e ele também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria levantou lentamente da cama, com o corpo dolorido, cheia de hematomas das mordidas, escorrendo sangue e porra. Vestiu-se cabisbaixa. Primeiro o sutiã, depois a blusa, a saia, e por fim, a calcinha. “Precisa de dinheiro para voltar para casa?” perguntou João, Maria respondeu, com a cabeça, que não. “Então toma esse livro”, ele disse. “É um presente”, e sorriu cinicamente. Ela pegou o livro, e acariciou a capa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E amanhã? Como a gente faz?” ela perguntou em voz baixa, como se estivesse no último fôlego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amanhã, eu vou embora” ele disse.“Vai me levar?”“Claro, claro. Me espera lá pelas seis horas da tarde, na praça principal, leve o livro, para eu saber que é você” e riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria foi embora, entusiasmada. Já pensava em lhe mostrar a revoada dos pássaros que sempre acontece nos fins de tarde, e o maravilhoso pôr-do-sol. Nessa época do ano, o céu fica rosado enquanto o astro rei se esconde atrás das montanhas. Ele lhe daria o mundo, ela daria a ele as únicas coisas que prezava naquele lugar, o pôr-do-sol e os pássaros. Estava feliz, agora era só pegar as roupas, avisar a sua mãe e tomar rumo da sua vida. Finalmente, ela seria quem ela merecia ser. Estava tão feliz, lembrando daqueles momentos em que se tornara mulher, lembrou das cenas de novela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Foi aí que percebeu que João não havia lhe beijado a boca.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai ver isso é coisa de televisão, homem e mulher de verdade não fazem isso”, pensou serelepe, saltitante, ignorando a dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rita da Virgem viu a menina irromper pelo portão baixo da casa às altas horas da madrugada. Desesperada havia acendido dezenas de velas, para dezenas de santos, algumas velas para dois santos simultaneamente. Não sabia o que fazer, se a abraçava, se a beijava, ou se lhe ralhava. A abraçou chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria foi para seu quarto sem responder nenhuma das perguntas da mãe, pegou uma sacola grande de linho e três ou quatro mudas de roupas, um pente de madeira e um sabonete. Avisou a mãe que estava de saída e que nunca mais iria voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe esbravejou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina colocou a bolsa no chão por um instante, e pouco erguendo a saia, arrancou a calcinha empapada de sangue. “Agora sou mulher, mãe. Não precisa se preocupar comigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou o dia como num sonho, sem saber se estava acordada ou realmente dormindo, carregando a sacola e abraçada com o livro que ganhara do homem da sua vida. Nem comeu, não sentiu fome, a dor havia desaparecido e aparentemente, já não mais sangrava. As marcas vermelhas nos pulsos, nos ombros no pescoço eram prova de que aquilo tudo era verdade, que aquele homem a possuíra como se faz com as mulheres. Aquele homem a tornara mulher. Aquele era o homem da sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando deu por si, já estava em tempo de rumar à praça, para esperar João. Maria colocou a sacola de linho ao lado do banco da praça, sentou-se, abriu o livro e leu, esperando João. E viu o final da revoada dos pássaros, viu o dia se derramar em noite, viu os postes se iluminarem, viu as estrelas respingarem cintilantes no céu em breu, viu a Lua resplandecer prateada, viu os grilos iniciarem sua estridente sinfonia, viu os aparelhos televisivos se apagarem, viu a algazarra do bar terminar, até ser tudo silêncio de novo e a cidade se esvair em sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E João não apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela foi ao hotel, talvez o único estabelecimento aberto naquele momento, perguntou ao porteiro sobre João. “Ninguém se hospedou aqui recentemente com esse nome”, ela insistiu “O pessoal do comercial, estavam aqui, não estavam?” “Ah, sim, foram todos embora hoje pela manhã, mas não tinha ninguém chamado João”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talvez, talvez o porteiro tivesse se confundido. Talvez ele tivesse se registrado com o sobrenome. Talvez João tenha se confundido, e entendido depois de amanhã, ao invés de amanhã. É pode ser isso, pode ser, ele ia fotografar hoje, não foi embora, não foi. Então, amanhã, devo voltar à praça, ele se confundiu, pobre João, pobre João” pensou Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no outro dia, no mesmo horário, Maria colocou a sacola de linho ao lado do banco da praça, sentou-se, abriu o livro e leu, esperando João. E viu o final da revoada dos pássaros, viu o dia se derramar em noite, viu os postes se iluminarem, viu as estrelas respingarem cintilantes no céu em breu, viu a Lua resplandecer prateada, viu os grilos iniciarem sua estridente sinfonia, viu os aparelhos televisivos se apagarem, viu a algazarra do bar terminar, até ser tudo silêncio de novo e a cidade se esvair em sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E João não apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João nunca apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ambiente é parecido em todo mundo. Homens se apinham em mesas, jogando um carteado, bebendo. Música ao vivo, dança. Mulheres semi-nuas oferecendo suas curvas, gentilezas e sorrisos, sendo apalpadas como vacas, alisadas como éguas, penetradas continuamente, homem após homem capaz de lhe pagar seu preço. Era a última noite na cidade, os seis homens da equipe de produção estavam reunidos na casa mais elegante da cidade baixa, as mulheres mais bonitas da região, disse um dos porteiros do hotel. Missão cumprida, tempo de relaxar. Jogavam dominó, bebiam whisky e cerveja, enquanto as putas lhe amaciam as coxas com a bunda. Esperavam ansiosos a chegada de Fábio. Fábio prometera chegar antes da meia noite. Haviam feito uma aposta. Faltavam cinco minutos quando ele irrompeu pela porta do bordel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ganhei, ganhei” gritou Fábio, sorrindo, correu em direção aos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os amigos blasfemaram, insultaram e até o amaldiçoaram. Exigiram as provas. E ele mostrou a foto.Dele penetrando Maria por trás, cheia de sangue.“Ganhei a aposta, falei que comia uma mulher de graça aqui nesse fim de mundo, e ainda mais virgem!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos concordaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pagaram os débitos da aposta.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-2612184880224317278?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/2612184880224317278/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/ela-le-o-mesmo-livro-no-mesmo-lugar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/2612184880224317278'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/2612184880224317278'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/ela-le-o-mesmo-livro-no-mesmo-lugar.html' title='Ela lê o mesmo livro. No mesmo lugar. Todo santo dia.'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-7284486500871578386</id><published>2009-06-18T12:58:00.000-07:00</published><updated>2009-06-18T13:30:52.955-07:00</updated><title type='text'>Teogonia</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;&lt;em&gt;(Do pequeno diário: dia anterior, 4:30 am.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí de casa com um enorme frio na barriga. Ainda não consigo acreditar que vou me encontrar com ele. Ele que pertence a outro mundo, que respira outro ar. Ele que não é mais um menino. Serão 12 horas de ônibus com gente que não conheço, para ir a uma cidade que eu não conheço, ver uma pessoa que não conheço. Descobrir um outro mundo que também não conheço. O ônibus está partindo da catedral da cidade. Típica igreja de cidade do interior, com muitas árvores em volta, muitos passarinhos e o frio na barriga. É loucura, qualquer pessoa me diria. Me resta pedir proteção à entidade que estiver acordada, e ainda com saco para me ouvir, pode ser qualquer uma, desde que atenda minhas preces. Peço não pra me proteger dele, mas me proteger da estrada. Não posso morrer antes de ser tomada por ele. Depois... o depois, pouco importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Do pequeno diário: dia 23, 17:20 pm.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me ligou. “Cheguei menina. Que horas são? Me encontra no 104 às 18h”. Corri até a janela numa tentativa frustrada de vê-lo. Mas eis que o vi atravessando a rua, uma blusa bege, calça jeans, cabelos ao vento. Que cabelo bonito ele tem. É ele? Será mesmo ele? Eu senti que era. Estava no 3º andar, não deu pra ver direito. Eu já estava toda arrumada, a pele pincelada do perfume que ele sentira antes pelo papel. O vestido leve, florido, solto: parecia a estréia de um poema. Queria parecer lírica aos olhos dele. Caralho, caralho, caralho! Ele veio pra mim. Só conseguia dizer isso. As horas não passavam. Evocava mantras que me deixassem tranqüila, canalizei todos os meus chacras. E nada me acalmava. Resolvi descer, falar com minha mãe antes. Liguei, só ouvi a voz dela, fiquei calada. Me acalmou. Voltei pro quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Momentos antes da concepção do universo)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O teto. Era a minha única referência do mundo palpável e concebido antes da existência dela. Olhava hipnotizado, o último refúgio da alma. Cimentado? Gesso? Branco, era branco. Eu estava sentado sobre a pequena geladeira do quarto, coberta por uma surrada toalha vermelha, os pés nus e suspensos sobre as pétalas rubras e esparramadas como um convite idílico à devassidão. O teto branco aceitava a dança com o movimento das chamas oferecidas a bailar na ponta das velas, também vermelhas. Dançavam como Salomé, diante de Herodes. E como Salomé à Herodes, as chamas haveriam de exigir minha cabeça? Minha sanidade? Eis me aqui, oferecendo-me ao sacrifício então, retumbaria como valente guerreiro. Ela virá? Não virá? Há quanto tempo estou aqui? Ela vai gostar de mim? Ou vai fugir, para sempre, e desaparecer como as páginas envelhecidas de um livro de poesias impossíveis. Há horas estava em trânsito, rumando para o meu destino. Trem, avião, ônibus, táxi, já havia percorrido metade do país, há sei lá quanto tempo. Lembrei de filmes, livros e lendas. Lembrei da corrida desarticulada de Phileas Fogg e me senti como um Passepartout, arrastado pelo desejo eloqüente, pelo pulsar de um coração desorientado em busca de alento. Horas, dias, semanas, meses estavam acumulados naquele pequeno quarto; todas as palavras amontoadas numa mortalha que cobririam minha pele inúmeras vezes, todos os sons e os desejos de sussurro também estavam lá. Eu era sujeito e objeto, criador e personagem de uma história obscena. Não a obscenidade do gozo dos corpos, da cópula. Outro tipo de obscenidade. Além da própria moral. Aquele encontro era um ato obsceno de entrega. Entrego meu destino em suas mãos, eu diria a ela, se me perguntasse. Entrego minha vida, meu rumo, entrego este e os próximos dias. Mas aceita-me nu, despido de posses e propriedades. Nada tenho além dos meus sonhos, da minha alma, do meu coração. Aceita-me para todo o sempre preencher teus dias de palavras, aceita-me, com o desespero débil da minha paixão. Este quarto é tudo que tenho. As pétalas para acariciarem teus pés. As velas, para aquecerem teu corpo. E eu. Nu. Nada mais. O teto. Era branco, tenho certeza. É seu também, se vieres me buscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(18:07 pm.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou ou não vou? Claro que você tem que ir, você é idiota? Vai, levanta. Vamos. L-E-V-A-N-T-E dessa cama. Nessa hora todos aqueles pensamentos bobos brotaram: E se ele não gostar de mim? Se me achar feia? Chata?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(18:10 pm.)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego em frente ao 104 e respiro fundo, fico um tempinho parada em frente à porta procurando um barulho sequer que me desse uma direção, um rumo. Olhei pra porta branca e um filme passou na minha cabeça. Sete meses de espera. Os momentos em que quase sumi da vida dele por medo de me apaixonar me veio a mente, e agora não tinha mais como fugir. Ele viajou meio mundo pra me encontrar. Ele só pode ser um maluco. Foda-se. Bato na porta. Bato bem de leve porque se ele não escutar, vou embora. Ele logo abre a porta. Eu não o vejo. Ele estende a mão. Eu não me entrego, não ainda, fico olhando ele ali, aquela mão branca. O quarto era uma espelunca. Ele transformou num palácio sem o mínimo de exagero que essa palavra possa transmitir. Eu precisava fotografar mentalmente aquilo. Sete velas vermelhas acesas. Um mar de pétalas de rosas vermelhas. O cheiro sensual da canela. A dança das chamas. E ele com a mão estendida. Camisa branca. Ele veio puro. Enfim cedi. Entrego-lhe a minha mão. Será que ele viu que ali também ia minha alma? Minha vida? Meus sonhos? Não sei. Eu os entreguei junto ao meu corpo. Um mundo em vermelho. O inferno? O purgatório? O paraíso. O paraíso é vermelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(A anunciação)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Você me estendia a mão", assim ela havia me narrado um sonho. Eu queria que fosse desta maneira que ela me visse pela primeira vez, como no sonho que um dia ela teve. "Bem vindo ao sonho", foi a primeira coisa que lhe disse. Ou não disse? Pensei em dizer. Disse? Não sei, aquela presença encheu meu espírito de embriagues. Era nosso sonho em carne. Era o ébrio em nossas almas. Quantas pessoas no mundo têm a oportunidade de viver algo assim? Uma história inusitada, a qual nos lançamos irresponsavelmente como dois loucos varridos. Nunca a havia visto, mas conhecia suas cicatrizes, conhecia suas dores, suas alegrias, conhecia seus desejos de ascensão e também os de profanação. Em algum momento foi como se adivinhássemos um ao outro, perdidos em dois pontos díspares na vastidão do universo, mas era como se fossemos um só. Talvez no vibrar das idéias irresolutas. Ou no pulsar do coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(A primeira vez)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ela era pequena, vestida de saia e sandálias, que ela tratou logo de se livrar. Era a única coisa que eu havia lhe pedido: que viesse descalça. Pensei em lhe ralhar, dizer alguma piada por causa da sandália. Mas ela estava tão linda, e ao mesmo tempo tão vulnerável. Ela repetia, entre espasmos e tremores: você veio, você veio, não acredito. Era tão bonito tudo aquilo, observá-la tão perto, observar assim uma mulher que aprendi a amar a milhares de quilômetros de distância ali, tremendo. Uma mulher de palavras enormes, gigantescas, uma mulher de histórias despudoradas, de repente, uma menina. Uma menininha, que eu precisava cuidar. Ela parecia uma prece frágil, parecia uma oração repetida até as palavras perderem o sentido, uma oração que dizia: me ame, me ame, me ame, me ame. Era tão bonita aquela história. Era tão linda a pele de cobre, o cabelo escorrendo negro, os olhos que vacilavam em me olhar. Fechei meus olhos e passei a farejar aquela mulher, seu cheiro das cartas que havia me mandado. Meu rosto roçava o rosto dela, a pele dela. O calor que emanava da sua presença fazia meus dedos buscarem suas formas. A palma da minha mão tocava seus braços nus, sua cintura. Ansiava pelo beijo, mas não queria beijá-la, não naquele instante. Queria tocá-la, senti-la. Moldá-la. "Eis a mulher da minha vida", pensei. Devo beijá-la, e abdicar desse instante em que somos meros desconhecidos? Havia a dúvida, nossos lábios irão se encaixar? Poderia ser tudo um engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(A primeira vez)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fui dona de todas as minhas vontades e verdades, sempre fiz o que quis, quando quis. E estava ali em frente a ele, não porque simplesmente queria, mas porque precisava. Há sete meses havíamos nos conhecido e ele era de outra. De outras. Parece que ele sempre viveu para ter as mulheres aos seus pés. Parece que todas as mulheres o mereciam. Ele não era de nenhuma. Eu também não queria que ele fosse meu. Sempre fui possessiva demais pra dividir tanto assim. Mas parece que tinha que ser. Eu tinha que ir contra todos os meus dogmas, e ser dele. Pior, dividi-lo. E eis que estava lá, toda revelada pra ele. A máscara da mulher forte e viril se desmanchou quando ele ergueu aquela mão ansiosa pelo meu toque. E descobri naquele toque o meu amparo. Ali descobri que poderia saltar no escuro, que ele me seguraria. Ele estava lindo, cabelos negros e lisos caindo sensualmente nos olhos, de óculos, de branco, ele veio puro. Eu estava inundada de cores num vestido florido. Estava entregando tudo a aquele desconhecido. Lembro que ele disse: “Venha descalça”. Eu só ficaria descalça quando me sentisse dele, se me sentisse dele. No exato instante que nossas mãos se tocaram, tirei as sandálias, comecei a tremer, toda minha carne tremia como que fazendo festa pelo seu toque. “Você veio, você veio”. Eu não parava de dizer isso enquanto ele me devorava com as mãos. Pouco entendi o que ele me disse, se é que ele disse alguma coisa, tamanha a minha embriagues. Foram 3.000 km percorridos por minha causa, por causa da entrega da insensatez de dois corpos. Dois irresponsáveis, dois inconseqüentes, dois depravados. Ele me tocava, marcava o território que há muito tempo já era tão seu, mas ele precisava da certeza, eu também. Sem o mínimo de pudor e pela total falta de resistência da minha parte ele põe um dos meus seios pra fora e pega, acaricia, lambe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me beija. Me cheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esfrega-se em mim contra parede, passa as unhas na minha bunda. Gemidos, gemidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me beija. Me arranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenta me engolir com as mãos, tenta me partir ao meio com seu pau roçando nas minhas coxas trêmulas. Eu sinto duro, imponente, guloso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me beija. Me lanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali ainda éramos dois estranhos, nem sei onde pus minhas mãos, provavelmente percorria seus cabelos, provavelmente arranhei suas costas pra senti-lo me partindo ao meio ainda mais. Ele olha nos meus olhos, dá um sorriso suave, ajeita meus cabelos, não sei se falou ou se eu que ouvi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Minha menina...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me beija.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Despudores)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha boca esta grudada à dela. Meus dedos tocavam em toda parte a pele macia, a pele dela. Meu coração pulsava como a de um predador ouriçado com a visão da caça. Era uma sinfonia de todos os sentidos, em todos os sentidos. Minha boca respirava à dela. Minha língua dançava com a dela. Minhas coxas roçavam à dela. O mundo poderia cair numa hecatombe e nada me tiraria dali, de perto dela. Respiramos o mesmo ar. O ar que saia da boca dela, bombeado pelo pulmão, e pelo coração que parecia querer saltar, o coração dela. Meus sentidos todos, em júbilo, em uníssono, celebravam a adoração daquela fêmea, daquela menina. Daquela mulher. Êxtase. Existência: tudo que passei, o que vivi, o que li, dancei e assisti, todas as palavras e todas as letras do mundo, em todas as línguas, tudo me levava para aquele momento.O momento pelo qual heróis morreram, guerras eclodiram, deuses foram criados. O instante em que minha vida inteira fez sentido, e se perderia por toda eternidade. Ali eu acabava, para renascer ou deixar de existir. Minhas mãos aprenderam outros caminhos para encontrar os caminhos dela. Meu corpo se desdobrava para tocá-la, possuí-la, absorve-la. Meus dedos a invadiam, com a ousadia pagã de quem pretende imacular pelo prazer da lascívia. Invadiam o corpo dela pelos lábios tenros, macios e quentes. Besuntavam-se em mel. Mel. Delicioso mel com o qual umedeci a boca dela. O odor da boceta quente se espalhou pela boca, pelo queixo pelo rosto. Ela tomou os dedos da minha mão, melados, como um ser faminto e desesperado; meus dedos banharam-se de língua, e passei a lamber-lhe no rosto, o gosto salgado do sexo. A língua se misturava à dedos, a boca, com gosto de sexo. Lamber, sorver. Beijar. Saliva. Boca. Boceta. Bunda. Flutuamos descalços pelo mar de rosas como dois zumbis em um só corpo, até o espaço da cama, cujo tecido vermelho nos acolheu, oferecendo lugar ao pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Cio)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me toma pelas mãos, me guia pelo mar de rosas. Sutilmente frias as pétalas me acariciam os pés. Sensualmente as sete velas me iluminam. Ele me deita na cama, me olha, me beija. Sua língua segura, suas mãos fortes, firmes, grudadas em mim. Desce suas mãos contornando o desenho do meu corpo. Sua boca morde a parte interna das minhas coxas, ele fica a poucos centímetros da minha boceta extremamente úmida. Quando ele a tocou com a ponta da língua senti um choque, um choque que me penetrou em ondas, me fazendo relaxar, me dizendo que a partir dali, eu não era mais minha. Eu gozava e ele me sugava, ele bebia, beijava minha boceta como beijava minha boca. E beijava a minha boca e em seguida beijava a minha boceta. A partir dali eu já não me dava por mim, parece que a minha alma se encontrava a poucos centímetros do meu corpo. Eu rebolava na boca dele, queria ele cada vez mais dentro. Me pôs de quatro, sem a menor cerimônia me dá um tapa na bunda bem forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ai D., dói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doía, doía muito, ele era forte, a mão ordenava que eu ficasse empinada pra ele, empinava cada vez mais, ele queria sempre mais. Eu me oferecia sempre mais, por vezes recuava só para ver a reação. Por vezes recuava só pra apanhar. Ele me lambia o rabo, a boceta, me puxava pela cintura me fodia num ritmo delicioso. Acompanhava o ritmo nas nossas almas, eu senti seu pau todo me penetrando, adentrando cada centímetro de pele do meu canal. Não coube. Não num primeiro momento. Estava tão duro, tão duro, eu sentia toda a sua rigidez. Senti-me uma prostituta. Senti-me uma cortesã obrigada a agüentar calada toda a dor que ele me proporcionasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quero sentar no teu pau, deixa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha que pedir antes, ele mandava, eu só obedecia, eu gostava disto. Só gozava se ele deixasse. Só chuparia se ele mandasse, e ele deixou. E eu sentei. No momento em que sentei na sua barriga e o vi dali de cima, me encantei de como ele era bonito. A pele branca, imaculadamente branca, os olhos como de uma águia caçando a presa, os cabelos lindos, o peito forte, a boca sedenta. Livrei-me do vestido, ofereci meus seios, rebolei sentada na sua barriga, não agüentei nem o tempo necessário de sentir seu pau dentro de mim, gozei ali e disse: “Vou gozar assim, roçando em você, por cima, pra cravar o gosto da minha boceta na tua pele e você nunca mais vai me esquecer. Você quer?” Ele quis, e eu gozei. Gozei de um jeito maravilhoso, impossível definir aquela sensação só pela lembrança, naquele momento houve um bloqueio, eu não pensava em Nada. Nada. Nada. A partir dali, depois daquele orgasmo tudo ficou difuso, era movimentos acelerados e eu os via em câmera lenta. Sua voz ficou longe. O corpo dele ela perfeitamente proporcional, perfeitamente branco, foi o homem nu mais bonito que eu já vi. Se pudesse gostaria de desenhar o seu corpo pra mim, ter ele como um modelo. Ter um quadro do corpo dele comigo. Entrega. Aquilo era a entrega de dois corpos apaixonados. Aquilo era o encontro de duas almas pagãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Batismo)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava nua, na cama. Nossos corpos acalmados pelo gozo, iluminados apenas pelas velas, e pelo brilho dos nossos olhos. Olhos de faróis, ela possuía. Linda, linda, linda. A mulher mais linda do universo. Eu lhe acariciava os cabelos e a contemplava, sentia nossas almas fundidas, derretidas pelo nosso corpo ainda quente. Certa feita, ela havia me dito que os homens se revelam após o gozo. Fosse isto verdade, o que teria se revelado naquele momento, senão o meu amor? Não havia outro lugar no mundo que eu queria estar após o gozo. Ao lado dela. Poderiam me oferecer mil impérios, em mil vidas diferentes. Se antes eram os sonhos impossíveis que acalentavam meus dias, naquele instante, havia nascido o amor. Absoluto, incontestável. Outrora, também existia (quando lhe peguei a mão pela primeira vez, ou quando trocamos as primeiras palavras perdidas através das cartas), existia, mas não com a certeza de uma profecia cigana de revelação após o coito. Se os homens se revelam após o gozo, então, eis minha verdade: o meu Amor. Só pensava nisso, quando agarrei a vela no chão e virei, por cima do corpo dela, na altura do cóccix. Ela soltou um grito de dor quando a cera quente vermelha acumulada se enfileirou em sua carne. “Eu te batizo no gozo, eu te batizo no fogo, és minha mulher para todo o sempre”, eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E beijei sua boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;( inacabado )&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-7284486500871578386?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/7284486500871578386/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/teogonia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7284486500871578386'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7284486500871578386'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/teogonia.html' title='Teogonia'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-7956232632810066212</id><published>2009-06-18T12:36:00.000-07:00</published><updated>2009-06-18T12:55:10.467-07:00</updated><title type='text'>Dos dialogos desprentensiosos</title><content type='html'>&lt;em&gt;( ou 'Tenho saudade daquele tempo em que a minha vida se desmanchava na tua boca')&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;Sobre a despedida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– &lt;em&gt;Naquela manhã eu chorei. Chorei porque amava as ruas que me afastaram de Henry e que me levariam de volta a ele. Chorei porque o processo através do qual me tornei mulher foi doloroso. Chorei porque, de agora em diante, eu choraria menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não acostumara com sua ausência.&lt;/em&gt; Agora entendo o que Anaïs quis dizer... e não poderia dizê-lo de maneira melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– &lt;em&gt;Henry &amp;amp; June&lt;/em&gt;, o filme que assistimos juntos... (silêncio) Às vezes, sinto que lhe jogo um mundo nas costas quando lhe chamo de mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que me tornei um pouco mulher. Não sou mais criança, mas também sei que não madura o suficiente... e parafraseando Anaïs: &lt;em&gt;o processo pelo qual me tornei um pouco mulher é que foi doloroso demais&lt;/em&gt;. Você foi a despedida mais difícil da minha vida. De longe, a mais difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não sabe o peso disso, para mim também. Mas eu nunca pensei naquilo como despedida, tamanha a certeza que tenho de que nossos destinos estão trançados. Senti como um até breve. Para nós seria mais simples a renúncia, mais fácil aceitar tudo como um amor de verão, gigantesco como um tsunami que depois de devastar tudo se recolhe às ondas do mar, desaparecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–Você estava com um olhar calmo... Eu não estava sabendo onde por a minha despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não gosto desta palavra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Despedida?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(silêncio)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o cíumes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu queria que o meu amor por você, não magoasse o meu noivo. Acho que o que ele sente por mim não é amor. É posse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês estão juntos há tanto tempo, desde que você era uma criança, você não deixa de ser algo que ele criou. Às vezes, quando idealizamos uma obra, que saí do controle, transcende o objeto criado. Já aconteceu isso com você, não? Ao escrever uma história ela vai tomando um corpo que não era o proposto, com vida própria... ele inventou você, e a história se desenrolou, foi além dos domínios dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É, você sempre com razão! Ele gosta de sentir que toma conta de mim. Mas sabe que quem toma conta sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu quero encontrar você no meio de tudo isso, Helena. Mesmo por que eu vou tomar conta de você também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não viveria em função de mim. Por isso deixaria que me cuidasse. Seria um cuidar para um bem-querer. Você não cuidaria de mim, pra se sentir cuidado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não mesmo (risos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ao menos, espero (risos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cuidaria de você, como faria com uma flor regando-a, vendo como ela reage a brisa e ao sol e claro, arrebentando a cara de quem chegasse perto... (risos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como daquele coroa que estava me paquerando no restaurante? Também não pode?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não! Aquilo foi sacanagem... Não posso sossegar um segundo sequer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pensei em te mostrar discretamente só pra ver como você reagiria e provar que eu não estava mentindo... mas preferi me divertir depois, sozinha. Lembrando o que você disse naquele dia "Eu sempre noto quando estão olhando pra minha mulher!" (risos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas a cara de pau é enorme, sabe? Nunca vi um caso tão descarado... Uma coisa é o cara te olhar discretamente enquanto estamos andando, cada um com seu pensamento, outra é quando eu praticamente estava dentro da sua boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi descarado mesmo. Viu? Você precisa estar preparado para todos os golpes surpresas. Não se sinta mais seguro mesmo quando estiver praticamente dentro da boca da tua mulher...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pois é, estou começando a achar que você é que deu corda para o tiozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você me viu olhando pra ele? Você estava olhando pra mim, praticamente dentro da minha boca...Como eu daria corda pra ele??? Olhava em poucos segundos, só pra saber se ele ainda estava olhando (risos) para rir de você depois, claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se falar isso ao pé do ouvido eu apaixono...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre as diferenças climáticas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meus dedos estão gelados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quantos graus ai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui, 8 graus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Queria esses dedos gelados... Numa boceta quente, isso seria uma delicia de choque térmico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acredita que é nisso que eu pensei nisso quando senti meus dedos gelados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Lembra você tateando ela por cima da calcinha? E eu dizendo: “Não me fode. Só sente. Sente ela molhada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Delícia, delícia e estava tão melada... Tão encharcada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E seus dedos teimando em me foder... Mesmo com uma generosa platéia ao fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como não se entregar a uma vida tão audaciosa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se entregue, e eu te darei a audácia, seus sonhos, meus sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre os olhares&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Antes, havia esperança. Da sua língua ser rachada, da sua boca ser pequena, de você ter 30 quilos a mais do que me mostrou nas fotos... Qualquer coisa que afastasse ou bloqueasse o sentido de beleza que havia em nós, Helena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu temia isso também. Não de você. Mas de mim para você. E se você não me achasse tão bonita quanto nas fotos? Em foto a gente sempre sai melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não no meu caso...(risos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você pessoalmente é ainda mais bonito que nas fotos. Isso é um mérito! Nas fotos não dá pra ver a cor dos seus olhos... um castanho claro, suave... Tão lindo teus olhos, por que nunca me disse que eram tão lindos assim?– Talvez porque nunca tenham brilhado tanto, como quando brilharam enquanto eu estava te olhando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre os homens&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O meu dentista me disse uma coisa: Disse que a cor dos meus olhos é a mais rara que tem. Alguém já havia me dito isso. Mas não é mérito nenhum. São castanhos. Mas é que é o castanho-real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas esse seu dentista quer te comer, falaria qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você acha que meio mundo quer me comer é? Sou boa, eu sei. Mas nem tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meio mundo, não. Todo mundo. E que você é boa, isso eu sei até demais. Vai dando mole para ver o que acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, se der mole, até minha vó eles comem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre as mulheres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou pagando a língua... Minha amiga acabou de perguntar “Você ta namorando com esse filé, é?” E agora, digo o que? tô namorando ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Diz que não, mas que eu sou seu namorado. Só para confundir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É, confundiu até a mim. Estranho, não temos uma data para comemorar o nosso relacionamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade eu não queria ter apagado aquela mensagem... Seria ser nossa data.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você apagou por que mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hum, deixe-me pensar... Talvez por que eu fosse casado? Ou foi por que, além da esposa, eu tinha uma amante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, é. Já havia me esquecido. Seu safado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Safada é você que ficou me dando mole!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu te dei mole? Baixa a bola. Você ficou atrás. Quem vivia me pedindo pra namorar e já casado com duas? Eu que te pegue se engraçando pra outra menina pra tu ver... Já basta aquelas tuas amigas misteriosas do escritório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a felicidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como eu sou feliz com você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu também meu amor, tanto. Tenho até medo de arrebentar de tanta felicidade. Imagina quando passarmos na nossa casa a nossa primeira noite juntos. Teremos certeza de que aquela será a primeira do resto das nossas vidas? De que será pra sempre? Eu já sonho com esse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre os filmes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A propósito. Aquilo que você escreveu. Lindo, lindo, lindo. Eu me sinto mesmo, no máximo, uma sofista, e você, Aristóteles. Perco até a inspiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nada, menina, o que você escreveu também foi bonito é assim que eu imagino nosso livro, nossa vida teus trechos, meus trechos formando uma coisa só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos escrever o nosso livro? Só nosso? Um bom capítulo esse primeiro. O do nosso encontro. Tem um filme cafona, chamado &lt;em&gt;‘O Diário de uma Paixão’&lt;/em&gt; que é mais ou menos isso. O cara escreve a historia do casal num diário. Porque depois de velha, a mulher adquiriu Alzheimer e ele sempre lia para ela. E ela achava aquilo tudo lindo, sem saber que foi ela quem viveu aquela história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fico pensando o quão maravilhoso vai ser nossa história... pense, o quão maravilhoso é ter eternizada sua versão, suas lembranças? E a minha versão, as minhas lembranças? As coisas que foram importantes para você, as que foram coisas importantes para mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na minha família teve um caso de Alzheimer e isso é uma doença hereditária. Já pensou? eu acordar e não saber quem é você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como naquele filme do Adam Sandler, que ele tem que conquistar a mesma mulher todos os dias...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– '&lt;em&gt;Como Se Fosse a Primeira Vez'&lt;/em&gt;. Eu assisti. Ela tem perda de memória. Li um livro dizia uma coisa bacana sobre o Alzheimer. Ele diz que é a melhor doença que pode existir. Porque você sempre tratará seus velhos amigos como novos e sempre poderá esconder seus próprios ovos de páscoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre os sonhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deve ser bom você morrer sem saber que está morrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É uma maneira de ver a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não me vejo morrendo longe de você. Se um dia não puder ficar com você, que eu ao menos adquira Alzheimer pra te esquecer. Morrer sentindo remorso por uma vida possível que não vivi? Que Deus me livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não quero pensar nisso, dói esse sentimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Só depende da gente, Heitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se não pudermos ficar juntos eu quero ser pai do seu filho, me dá isso? Saber que vai ter perto de você um pedaço de mim, para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Assim seremos obrigados a nos falar pelo menos uma vez no mês! (risos) Eu não me contento com pouco. Um filho, ainda assim é muito pouco pra mim. Se você não puder acompanhar comigo o crescimento dele. Isso seria ainda mais torturante ver nele teus traços, teus gestos. Imagina uma menininha com teus olhos? Aquele cabelinho lisinho? Suas duas meninas pulando em você quando chegasse em casa. Teria trabalho na educação das duas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você vai ser sempre minha menininha, Helena. Eu já me vejo falando para ela: fica quietinha aí jogando &lt;em&gt;Street Fighter&lt;/em&gt; um minuto que eu vou dar uns tapas na bunda da sua mãe para ver se ela toma jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bobo (risos). Ela vai ser craque em &lt;em&gt;Street Fighter&lt;/em&gt;!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ei, aluguel de casa aí é barato?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que está perguntando isso? Você vem de mudança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um dia eu vou, você sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a mágica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu acho muito interessante essas coincidências que acontecem com a gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu acho mágico. Que a nossa vida juntos seja mágica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como foi o nosso encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O primeiro encontro, só o primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu adoro quando você fala essas coisas com tanta convicção. Porque sou pessimista pra caralho. E isso me dá força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pensa que eu não sou seu namorado, sou o homem da sua vida ou o filé da sua vida, para facilitar a compreensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Só chamo você e um amigo de filé. Mas meu amigo é ironizando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ei, não gostei, que papo é esse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–Você tem uma bunda linda. Ele, eu acho que não (risos). Você é um filé. Ontem eu vi meu amigo, e dei um abraço nele. Ele falou que eu estava com cara de apaixonada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre os presentes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabe, dos presentes que você me deu, um dos que mais adorei foi aquela caneta. Passo a tarde escrevendo pergaminhos no meu corpo com ela. Frases que me levem a você. E é difícil daquela tinta sair. Até hoje estou riscada. Escrevi na minha perna: &lt;em&gt;Sinto falta de um verbo que se conjugou no meu corpo&lt;/em&gt;. Há um tempo escrevi em ondas, como as do mar: &lt;em&gt;Tenho saudade daquele tempo em que a minha vida se desmanchava na tua boca&lt;/em&gt;. Fico pensando nessas frases, e escrevendo no corpo. Numa tentativa de te ter comigo. Eu não brinco quando falo que estou toda riscada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu fico extasiado com o que me diz isso, acho tão bonito, tudo tão bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O professor passou uma frase ontem: A mão é o lado afiado da mente, e eu complementei no corpo: ... e é o lado guloso da alma. Aprendi isso com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Queria você riscada, desenhada, queria estar de mãos dadas com você, ou andando abraçados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu estou riscada por você. Pra sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Num desses sonhos encontro sua nudez, no teu corpo as frases que nos ligam e no peito, uma só palavra ‘dor’. Eu me aproximaria beijaria a inscrição. Beijaria e limparia tua pele com minha saliva e algum pedaço de tecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E eu me transformaria em flor ou numa lua bem pequenininha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre a voz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Seu jeitinho de falar... tão e lindo também! Alguém já falou do teu jeito de falar? É diferente, tem um toque especial. Tem a firmeza do homem, com jeito de menino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já comentaram sobre minha voz, mas não com tanta sensibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fiquei com medo que você não gostasse da minha voz! Ja pensou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Amo sua voz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Até cantando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, é a coisa mais linda do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– (risos) é, você está mesmo apaixonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você canta meio sussurrado, me ditando as palavras... eis que eu digo, enfim, não há nada mais bonito de se ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Amo você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Helena, não quero que isso entre a gente acabe, não quero que isso morra quero sempre esse encantamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que não temos como fugir. Eu e você, já é claro remeter a isso tudo. Eu nasci pra ser tua. Sempre soube disto! Eu não teria enfrentado tudo aquilo a troco de nada. Eu sabia que valeria a pena. Você podia mesmo ser um psicopata. Ainda mais viajando 3.000 km pra ver uma mulher. Mais psicopata ainda! E eu estava pouco me fodendo pra isso. Eu só queria chegar viva lá. Se morresse depois, estava no lucro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o aniversário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vai comemorar teu aniversario?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Depende, você vem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Depende, você quer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você é um garotinho ainda... Ei, tô brincando. Você está ficando velho pra caralho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Considerando que passei metade da minha vida para te encontrar, ainda tenho uns 33 anos para queimar com você. Topa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;–Tá achando que com 66 ainda dá no couro? Tem certeza? Vai sonhando!–Inventaram o Viagra para que, minha filha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah tá, apelando pro Viagra tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Morro, mas não deixo de te comer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vou anotar isso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro, mas vai ter que se cuidar também, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vou casar, engordar uns 20 quilos. Andar parecendo a Cuca em casa, de bobs no cabelo e chinelão. Ah, mas posso usar suas camisas não posso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro que pode. De qualquer jeito, vou tirar umas fotos suas peladas, quando você tiver engordado uns 20 quilos e andar parecendo a Cuca, de bobs no cabelo e chinelão, vou mandar fazer um poster das suas fotos e vou te comer pensando: "Que puta gostosa essa da foto!" (risos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que horror! (risos) E todo o sentimento, aquela coisa de “eu não ligo pra carne"?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Papo furado (risos). Adoraria ver sua cara agora, com aquele dedinho me apontando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E não é que estou fazendo isso mesmo? Ah, cachorro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre as tonturas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou com umas tonturas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso é normal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não! (risos). Bem, agora deve ser. Também nunca foi normal ter o homem da minha vida por uma semana e na outra, não ter mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Só não tem o meu corpo. Por enquanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por enquanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Amo você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Amo mais.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-7956232632810066212?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/7956232632810066212/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/dos-dialogos-desprentensiosos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7956232632810066212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/7956232632810066212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/dos-dialogos-desprentensiosos.html' title='Dos dialogos desprentensiosos'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-4742963885658589698</id><published>2009-06-18T12:00:00.000-07:00</published><updated>2011-04-01T05:11:32.931-07:00</updated><title type='text'>Reminiscências</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;- Às vezes eu vou cagar, e dou uma daquelas cagadas fudidas. Sabe quando se dá uma puta cagada? Uma daquelas cagadas que parece que vai entupir o encanamento inteiro? – ele ficou em silêncio por um segundo aparentando estar refletindo sobre o que acabara de dizer, levantou e se pôs a caminhar pela sala como um grande orador Romano e continuou – Daí tiro a bunda do assento e tenho a grande surpresa: não tem merda nenhuma na privada. A merda sumiu. Desceu pela latrina sem eu precisar apertar a descarga. Ou foi abduzida, sei lá. Eu penso na merda que fiz, no tamanho da merda, no esforço para ela sair do meu rabo, na quantidade de merda. Mas a merda, a merda mesmo, a merda sumiu. Eu tenho uma sensação estranha de felicidade quando isso acontece. Não acontece sempre. Na grande maioria das vezes, é preciso apertar a descarga para se livrar dos dejetos. E é o que vou fazer agora. Me livrar de um excremento – apontou o revolver para a cabeça de Roberto – mas quando acabar, vou fingir que a merda nunca existiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não atire no meu rosto – desabotoou a camisa e apontou o coração. – Foi isso que ela encontrou em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse, pensando na morte com o rosto desfigurado. A morte em si lhe era indiferente. Quando criança sonhara em morrer como mártir, temia não a morte, mas o desperdício da vida. Se a vida era inútil, para que viver? Mas ao menos, se preservasse o rosto intacto, haveria de ser um morto bonito de vida inútil. Já haviam combinado a morte, outrora. "Vou lhe dizer, por que sei que só você vai fazer isso por mim" e a menina pediu para que fosse enterrada aos pés de uma árvore, talvez para que seus sonhos de alguma maneira continuassem se espalhando pelo mundo. Já fizera tanto para estar com ela todos esses "alguns dias" por ano, que pensava que, ao menos, no final de tudo, enterrariam um ao outro. "Tudo bem, mas se eu morrer primeiro, me enterre lá".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Ele estava morto quando a conheceu. Sem &lt;strong&gt;esperança&lt;/strong&gt;, sem &lt;strong&gt;sonhos&lt;/strong&gt;, sem &lt;strong&gt;perspectivas&lt;/strong&gt;. Aguardava uma única carta para ser enterrado, o atestado de óbito).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esposa de Roberto descobriu tudo em uma dedicatória de livro. Ela leu, não reconhecendo a letra, as iniciais, nem o teor lisérgico daquele texto, perguntou: "Quem escreveu isso?" Ele olhou para a esposa, e disse: “Minha amante”. Disse, com a naturalidade de quem responde quando lhe perguntam às horas. Poderia fingir que o livro não era dele, que havia comprado num sebo, já com essa dedicatória (e diria mais, que isso lhe valeu um desconto, o que agradaria a esposa que não gostava tanto quando ele gastava com livros), poderia inventar mil e uma histórias plausíveis, mas ele estava cansado de fingir aquela situação. Estava cansado de inventar congressos e viagens cada vez mais longas. Estava cansado de viver uma vida que não deveria ser a sua. A verdade era que só o corpo frio pertencia a aquela casa. A &lt;strong&gt;esperança&lt;/strong&gt;, os &lt;strong&gt;sonhos&lt;/strong&gt; e a &lt;strong&gt;perspectiva&lt;/strong&gt; estavam em outro lugar. Junto com o coração. Muito além da Cidade Cinza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Sem dizer uma palavra sequer ele viu a esposa chorar, gritar e partir, levando o filho, o carro, roupas e os aparelhos eletrônicos. Ficaram os livros, os discos e os filmes. Só sentiu falta de não ter onde tocar).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 16 horas, a secretária informou Roberto sobre a prospecção com um empresário, que havia insistido em agendar uma reunião no limiar do expediente. O empresário dizia estar de passagem na cidade, e se essa reunião não acontecesse naquele dia, sabe-se lá quando poderia ser. A mesma secretária, no final da tarde, abriu a porta do escritório para o suposto novo cliente. O coração de Roberto pulsou em semibreve. Caía-lhe a máscara. Roberto sentiu-se nu, exposto em sua intimidade, seco, abandonado ao relento com sua genitália exibida e ridicularizada. Sentiu-se refém da própria sombra, pela primeira vez em 38 anos de vida, teve vontade de gritar pelo pai. Mas o pai estava morto, há muito mais tempo do que ele podia lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto conhecia o novo cliente. Conhecia sua fisionomia através de fotos, de vídeos – onde sempre aparecia em intromissão –, conhecia a história, conhecia a voz gravada, conhecia o sotaque, o gênio, o palavreado. Conhecia os êxitos e os fracassos, conhecia por conversas infindáveis de que às vezes tentava escapar. Roberto conhecia mais o empresário que acabara de adentrar em sua sala, que talvez conhecesse a si mesmo. Conhecia pela tatuagem no pulso esquerdo, uma frase em sânscrito, que a menina também carregava no pulso, no mesmo pulso esquerdo que ele beijara e lambera tantas vezes nela. Era estranho ver aquelas letras desenhadas em outro corpo, no corpo de um homem, sentiu-se sujo. Roberto conhecia intimamente o novo cliente que entrava em sua sala com sorriso de lábios fechados. Conhecia-o, pois amavam a mesma mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina demorou a atender o celular. Ele esperava dez toques. Inventou essa regra absurda: para os telefones fixos, eram seis toques antes de desistir. Se em seis toques, ninguém atende, é porque não vão atender. Em celular é dez. No nono toque, ela atendeu. “Acabou”, ele disse de pronto. A menina não entendeu exatamente o quê. Sabia que ele gostava de jogar uma palavra no ar, e aguardar a compreensão instantânea do outro. E ela era a única que o compreendia na maioria das vezes. “Acabou”, ele repetiu sem saber qual seria a reação dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam nus na cama, e se gostavam assim. Amavam-se feito bichos, e depois se abraçavam, como dois virgens. “Eu te amo”, Roberto disse à ela pela primeira vez. Ela lhe olhou os olhos, procurando alguma coisa, talvez procurando a verdade daquelas palavras ditas. Ela perguntou com o cuidado de um equilibrista de copos: “Você sabe o que isso significa?”. Roberto respirou fundo e sussurrou: “Eu sei”. &lt;strong&gt;Ela sorriu, não como quem o faz para agradar. Sorriu um sorriso espontâneo, sorriu com a leveza da água que desliza pelo rio. Sorriu com a alma e com todos os sentidos do corpo&lt;/strong&gt;. Ele a acariciou no rosto por instantes, enquanto a olhava maravilhado como se acabasse de descobrir a visão, queria roubar com as pontas dos dedos aquele sorriso que irradiava reciprocidade tornando indispensável qualquer palavra, queria guardar para sempre aquele momento, mas só conseguiu balbuciar: “Você é uma menina linda”. “Eu sei”, respondeu a menina com os olhos brilhando. E se puseram a gargalhar, em êxtase. Daquele dia em diante, ela não possuía outro nome, senão menina. A menina dele. Amaram-se novamente, do jeito como gostavam, se lambuzando um do outro. “&lt;strong&gt;Você é doido&lt;/strong&gt;” a menina falou ainda nua, de olhos semicerrados, no último suspiro de gozo. “Eu sei”, ele respondeu. E lhe beijou a boca com o gosto de mel entre os lábios, “Eu sei”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto não ouvia mais os impropérios que o outro verbalizava. Assistia a cena com distanciamento abissal. A ponta do revólver gelado continuava em seu peito. O homem que estava no seu escritório gritava, bradava, fazia gestos. Roberto não se mexia, imerso em conjecturas. O raciocínio destilava o caminho que havia levado o homem armado até ali. Em nenhum momento pensou que ela poderia ter feito isso. Ela nunca faria. Lembrou, de súbito, que a secretária era prima da ex-esposa. Havia esquecido há muito dessa relação de parentesco, não eram próximas e fisicamente bastante diferentes. Nada melhor que uma separação para atar os laços familiares. Nada mais eficiente que uma vingança para unir mulheres. A secretária tinha acesso às contas do celular e aos valores dos interurbarnos registrando sempre o mesmo número. Talvez foi assim, talvez não. Nunca iria ter tempo de saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto só queria ouvir uma coisa. Mas a menina não disse. Uma vez, há muito tempo ela havia afirmado: “quando você resolver sua situação, eu resolvo a minha”. Guardou isso para si, como uma chave, uma senha secreta capaz de abrir as portas dos Campos Elíseos. “Acabou”, ele disse exorbitante com a chave e a senha secreta na mão, “está tudo resolvido”. &lt;em&gt;Estou livre para você&lt;/em&gt;, ele se fez entender. &lt;em&gt;Livre, sem amarras quaisquer. Livre, meu espírito, meu pensamento, meu corpo. Livre, mas me rendo a esse amor incondicional&lt;/em&gt;. Ao invés da alegria espontânea, ao invés da receptividade, ao invés da reciprocidade, ele ouviu medo: “&lt;strong&gt;Você é doido&lt;/strong&gt;”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Tinham sonhado tanto com esse momento por anos a fio, tinham sonhado juntos e separados, com o dia em que seriam apenas os dois em uma casa com jardim no meio do nada, e onde pudessem ver os sol nascer e se pôr, perto do rio, onde pudessem colher e espalhar as cores do alvorecer pelos cômodos, onde pudessem acender no céu luzes de estrelas. Sonharam com essa casa imaginária que ia ficar para sempre depois que morressem, com uma parede vermelha no quarto, repleta de citações, para que todos que viessem depois soubessem que era possível acreditar no amor. A árvore onde seriam enterrados também ficava nessa casa).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela argumentou que não poderia ficar com ele, não agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(Ele mantinha anotado o celular dela num pedaço de papel rasgado, que ela havia lhe dado quando trocou o número, ao final de um dos congressos imaginários que inventam para se ver. Sempre que ligava, ele recorria a esse pedaço de papel com aquelas letrinhas espremidas, além do número novo havia algo que ela escreveu, sem medir o peso das palavras: “Meu destino pelo nosso”. Naquele pedaço de papel, ele também guardou o beijo que ela lhe deu, sorrindo, como uma criança que acabava de aprontar).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu acabei de casar, agora não posso”. Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu te amo &lt;strong&gt;mais que tudo nesse mundo&lt;/strong&gt;, Roberto”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E desligou o telefone. Mas lembrou que a ouviu dizer isso também ao marido, pouco antes deles casarem, há cerca de dois meses. Quando desligou, Roberto amassou o papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“...eu também te amo” a menina disse ao celular. Desligou e se voltou a Roberto, “Era ele. Quer saber por onde ando, está com medo de que eu não apareça” e riu, já vestida de noiva. Faltavam três horas para a cerimônia e uma hora e meia para o avião dele partir. Roberto olhou para a menina com um sorriso forçado. “Não case com ele”, pediu. Haviam discutido isso durante ou últimos meses, sobre o que mudaria entre eles, quando ela finalmente casasse com o noivo de longa data. Ela o fez acreditar que nada mudaria. Continuariam existindo. Sempre existiriam. De alguma maneira existiriam. De alguma maneira sem lógica – por nascerem em décadas diferentes, em estados diferentes – de alguma maneira sem nexo ou sem sentido; de alguma maneira irracional eles sabiam que haviam nascido um para o outro, e que, de alguma maneira existiriam, mesmo que só pudessem se comunicar pela Lua, pelas flores que plantaram juntos, ou por outros elementos da natureza, mesmo que só pudessem se comunicar por música ou por livros invisíveis que nunca escreveriam, mesmo assim eles sabiam que iram existir um para o outro, por todo o sempre. Pelo menos, acreditavam nisso. A menina vestida de noiva só não podia suportar a idéia vê-lo abandonar o filho pequeno para ficarem juntos. Justo ela, que queria agradar indiscriminadamente todas as crianças do mundo. Justo ela, que via no sorriso de uma criança o bem mais valioso e sincero da humanidade. Ela achava inescrupuloso, vil e baixo demais tomar o pai de um filho. Assim a menina vestida de noiva vivia esse estranho paradigma – o que ela mais queria, era, ao mesmo tempo,&lt;strong&gt; o que mais temia&lt;/strong&gt;. Roberto não achava nada, só pensava que não seria o primeiro nem o último homem a fazer isso. Ele acreditava que se negasse esse amor monumental por sua menina vestida de noiva, viveria uma vida em vão. Uma vida inútil, &lt;strong&gt;o que mais temia&lt;/strong&gt;. E quando os argumentos acabaram e o matrimônio se deu por notório e inevitável, ele pediu uma última noite de luxúria, à véspera do casamento. E ela deu a ele sua última noite de solteira, sua última noite de menina, seu primeiro despertar como mulher. Ela o fez inconseqüentemente, aceitando todos os riscos. Ela o fez, porque o amava mais que tudo nesse mundo. Arriscou-se passando a noite longe da casa dos pais onde morava, inventou uma desculpa mirabolante, deixou toda família aflita quando disse que iria dormir fora e que iria direto para a igreja, acreditaram que seria o derradeiro capricho da menina sempre geniosa. Iria dali mesmo, do hotel, onde acabara de ser tomada pelo amante, da cama, direto para o altar. Dos braços do homem que amava, para os braços do marido. Estava com toda a roupa de noiva por sobre o corpo – ainda desabotoada, com o cabelo para arrumar – e a meia branca 7/8 já lhe contornando as coxas. Roberto a achava tão linda assim, vestida de pureza, parecia um anjo em sua morenice pecadora. Sonhara tantas vezes com esse dia, mas sonhara ele como noivo. “Não case com ele...”, disse pela última vez, “...casa comigo”. A abraçou por trás, beijando o pescoço nu. A menina vestida de noiva olhou para o horizonte que se apresentava silencioso através da janela gigantesca do quarto, e deixou uma lágrima escorrer pelo rosto. Sempre chorava quando ele ia embora. Mas desta vez não chorava pela partida. Chorava o destino dos dois. Chorava, pois não pôde refutar o pedido de casamento depois de tanto tempo de noivado e ninguém na sua família ou na sua cidade entenderia o motivo da recusa de tão bom partido. Chorava, pois em seu destino imaginário Roberto era o seu marido, era o pai dos seus filhos, era o homem da sua vida. Chorava por que já não tinha certeza de estar fazendo o certo e chorava, por que iria até o fim, suportaria calada toda conseqüência de seus atos. Chorava, porque nunca conseguiria viver se produzisse um órfão, não ela. Chorava, por que estava acuada e não tinha outra escolha. “Você é casado, lembra?”. E permaneceram assim, por instantes, ela chorando seu choro e ele a respirando, se impregnando do corpo dela, armazenando nos pulmões, nas narinas tudo que pudesse resgatar. Não sabiam quando iam se ver novamente. Nunca sabiam se iriam se ver novamente. O choro diminuiu. Até que tudo virou silêncio, tudo virou calma. Os braços dela se renderam finalmente, procurando repouso por sobre os dele, até os dedos da mão se encontrarem trançados. E lentamente o que era choro, o que era partida foi se transformando em necessidade de toque, em desespero, em saudade lancinante antes mesmo da partida. E tudo virou fúria, beijos, abraços despudorados. Foi assim, talvez encantados pela tristeza, talvez pela satisfação de celebrar a insensatez daquele momento, ou talvez fosse só amor mesmo. O maior amor do mundo. Ele ergueu o vestido de noiva e a tomou por trás. Ela o sentia arder dentro dela, penetrando sua carne com violência, ela oferecia suas ancas, recusando qualquer postura casta. Era uma impura. Era uma mulher de beira de estrada. Uma vadia qualquer. E Roberto a puxou pelos cabelos, fazendo-a oferecer os ouvidos para sua língua molhada, para seu hálito quente e seus lábios famintos e, entre o arfar e os dentes, sussurrou: “Sua puta”. A menina vestida de noiva sorriu. Ela sorriu, não como quem o faz para agradar. &lt;strong&gt;Sorriu um sorriso espontâneo, sorriu com a leveza da água que desliza pelo rio. Sorriu com a alma e com todos os sentidos do corpo&lt;/strong&gt;. E balançou a cabeça negativamente numa felicidade absoluta e respondeu, com voz embriagada de prazer: “Sua puta, só sua”. Roberto gozou dentro dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina vestida de noiva gozou, só pelo gozo dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi a última vez que se viram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(No avião, de volta para casa, os sentimentos de Roberto eram confusos. Não sabia se devia agradecer ao marido cheio de posses por cuidar da sua menina, ou se o amaldiçoava, por lhe tirar a mulher da sua vida. Reclinou a poltrona e fechou os olhos. O único conforto era imaginar que a menina vestida de noiva estaria entrando na igreja naquele momento, e que, por baixo do vestido branco, seu gozo lhe escorria pelas coxas. Imaginava o gozo escorrendo tão lentamente quanto à lágrima que deslizava em seu rosto).&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto desamassava o papel. Três dias atrás, havia trocado de celular. Não agüentava mais as ligações dramáticas da ex-esposa. Resolveu mudar o número para conseguir um pouco de paz. Mas, por causa disso, há três dias também, não falava com a menina, que antes daquela ligação, andava tão empolgada em descrever a lua-de-mel em Paris. Alisava o papel como se acariciasse o rosto dela, buscando, através do tato, recuperar aquele beijo de tantos anos passados. Ia ligar para a menina, para lhe dizer o novo número. Só para que ela soubesse que ele estava sobrevivendo, e que esperaria o tempo dela, pois a amava agora, e a amaria para sempre. Então, a secretária bateu à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do outro lado do país a menina chorava em desespero, toda encolhida num canto da sala. Chorava miando o nome do amante, agarrada aos presentes que ele havia lhe dado ao longo desses anos e que conseguira trazer escondido para a nova casa. Doía-lhe o corpo inteiro, uma sensação ruim. Já não sabia o que era presságio, o que era presunção e o que era inevitável. Há quatro horas tentava ligar no celular de Roberto, e a única voz era a da gravação da operadora de telefonia dizendo “esse número de telefone não existe”. Tudo lhe doía, entre os miados soltava gritos altos e se batia nos braços, nas coxas e nos seios. Há quatro horas mergulhava nesse estado de impotência e auto-flagelação. Há quatro horas, o marido entrava na sala, onde ela lia um livro. Há quatro horas havia dito que estava indo para a Cidade Cinza. Há quatro horas, subiu ao quarto e pegou o revólver que guardava na gaveta de meias. Há quatro horas, ele havia se ajoelhado na frente dela e acariciado seu rosto. Lhe beijou suavemente os lábios. Há quatro horas, ele disse com os olhos marejados: “Eu te perdôo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roberto vomitava sangue. A bala havia atravessado seu corpo, mas não havia acertado coração. A morte não foi imediata. Do sangue que jorrava da sua boca, também saíram as últimas palavras. “Diga que a amo, mais que tudo nesse mundo”. Mais três balas saíram do cano fumegante, desta vez desfigurando o rosto dele. Rosto que ela gostava tanto de beijar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-4742963885658589698?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/4742963885658589698/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/reminiscencias.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4742963885658589698'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/4742963885658589698'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/reminiscencias.html' title='Reminiscências'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5592130477304863545.post-5331399269730011311</id><published>2009-06-18T11:30:00.001-07:00</published><updated>2009-06-18T11:43:59.557-07:00</updated><title type='text'>Demônia</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffffff;"&gt;1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendeu o fósforo. A chama dançou lânguida no frágil pedaço de madeira. Ele a observou por instantes antes de apagá-la com um simples sopro. Era uma celebração: o feriado da Proclamação da República havia se tornado um dia especial. Nesta mesma data, há dez anos, conheceu uma mulher, a sua primeira mulher. Lembrava-se que o feriado foi o único dia disponível para visitar a bibliotecária de 40 anos. Como uma afirmação à sua devoção aos livros ou por ironia, quis o destino que sua primeira mulher fosse uma bibliotecária. Ele, contínuo de um banco por profissão, retirava edições técnicas onde ela era a responsável pelo acervo. Ambos expunham despudoradamente suas intenções pornográficas em olhares maliciosos. A mulher possuía coxas formosas, e ele, um histórico genético para sem-vergonhice. Diz a lenda que seu pai havia deitado com 600 mulheres e que freqüentava o bordel desde os treze anos. Enquanto o pai era recebido pelas meretrizes na porta da frente, o avô fugia pela porta dos fundos. Naquele 15 de novembro, no apartamento dela, a bibliotecária montou sobre ele num cavalgar selvagem e ritmado, e assim domou-lhe a ansiedade da primeira vez. Naquela época ele ainda acreditava em alma, e também acreditava que sua alma pertencia a uma garota fogosa, porém virgem, que um dia foi sua namorada. Não foi com a namorada que ele perdeu a virgindade e sim com a bibliotecária balzaquiana. Ela só estranhou quando, no final de tudo, o rapaz começou a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele adorava beijar e beijou todas as mulheres que pôde, e quase todas que quis, de todas as idades, crenças, formas e cores. Adorava deixá-las sem ar, enlouquecidas, implorando por mais. A cada beijo, a cada boca, tentava desesperadamente lubrificar seu próprio músculo cardíaco. Através da língua e dos lábios, buscava tomar de cada mulher qualquer vestígio de decência, desejava extrair do âmago das formas e da alma feminina o sentido de tudo. Queria fazer brotar o fogo desesperado a encharcar-lhes o sexo. Entregava-se a tais beijos com tamanha volúpia que estes beiravam a obscenidade. Poderia ter deitado com todas as mulheres que beijou, mas lhe faltavam duas coisas: tempo e posses. Desde menino trabalhava e estudava para ajudar em casa o pai doente. Nunca fez falsas promessas a nenhuma mulher e não tinha onde acomodá-las e nem como. Por isso, desejava-as no meio das ruas, nos bancos das praças, atrás de postos de gasolina. Desejava-as em locais públicos, não por fetiche, mas por não ter como levá-las a qualquer outro lugar que fosse. Foram poucas as que aceitaram suas propostas absurdas e imorais de se entregar ao preço da aventura no momento único da insensatez e da paixão. Acreditava que a mulher só beija de verdade uma vez, na primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheceu duas irmãs. Uma queria o mundo, a outra, queria escrever sobre o mundo. Se apaixonou pela que desejava ser escritora. Falaram-se, trocaram textos, dicas de livros, escreveram e dedicaram poemas um ao outro; ouviram Doors e leram juntos ou em separados Drummond, Wilde, Anaïs, Miller, Kundera, Voltaire, Mayakovsky, Baudelaire... Ela afirmava que ele era o homem de sua vida, mas não queria largar o namorado. Ainda hoje, se ele acreditasse no amor, diria que a ama. Ela nunca abandonou seu relacionamento apesar das promessas cobertas de beijos e foi com a outra irmã, a que queria o mundo, com quem ele se deitou. Aprendeu uma coisa com a que queria ser escritora e com as outras que vieram depois: mulheres são palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrou uma outra mulher, com quem dividiu a esperança de uma vida monogâmica. Tinham muito em comum, inclusive o desejo exagerado e logo abraçaram os laços matrimoniais. Ele se lembra com orgulho dos primeiros dias de casamento e do prazer que ela teve quando ele lhe apresentou e compartilhou o orgasmo. Duvidaram quando alguém disse que a rotina iria domar o relacionamento, entretanto, cinco anos após o matrimônio ele olhou no espelho e percebeu que não sabia mais beijar, que seu pau já não era incansável e que a paixão havia arrefecido em algum lugar, num daqueles dias. Desejou nascer de novo, queria ser bonito e burro, queria saber dançar e cantar. E assim teria todas as mulheres que cobiça e seria feliz, mesmo sem saber. A ignorância é o maior dos dons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma morte rápida, a única coisa razoável que um homem justo pode desejar quando perde a crença em Deus, a esperança no amor e o prazer no sexo. Aos 25 anos, considerava sua tediosa atividade sexual definida por todo o sempre e de certa forma conformado com sua trepada mensal quando uma conversa tola despertou seu desejo adormecido. Cético ao extremo, alguém um dia lhe perguntou: "Venderia sua alma para o demônio?", depois de muito refletir, irônico ele respondeu, "Para o demônio não, mas para uma Demônia, talvez, se ela tivesse pés bonitos e viesse descalça".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acendeu o fósforo. A chama dançou lânguida no frágil pedaço de madeira. Ele a observou por instantes antes de apagá-la com um simples sopro. Era uma celebração: o feriado da Proclamação da República havia se tornado um dia especial. Nesta mesma data, há dez anos, conheceu uma mulher, a sua primeira mulher. Ele se lembra da bibliotecária, mas pensa na Demônia quando os últimos resquícios de fumaça desaparecem no ar. Todos os dias ele acorda com a esperança de encontrar essa que há de lhe salvar e se tornar o combustível inestimável para sua libido contida. Ainda hoje seus olhos atentos percorrem sandálias de lolitas, mulheres maduras, moçoilas de família e garotas de programa. Há de encontrar essa mulher descalça, essa Demônia, com quem pretende compartilhar toda pornografia e impureza de sua genética profana, de seus instintos imorais. Uma mulher além das palavras. Sabe que será apenas por um momento, por apenas um único beijo - onde línguas se entregam inconseqüentes à fúria e insensatez dos corpos – e que ela virá para lhe levar a alma, coisa que ele não acredita mais.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5592130477304863545-5331399269730011311?l=esollers.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://esollers.blogspot.com/feeds/5331399269730011311/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/demonia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5331399269730011311'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5592130477304863545/posts/default/5331399269730011311'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://esollers.blogspot.com/2009/06/demonia.html' title='Demônia'/><author><name>E.Sollers</name><uri>http://www.blogger.com/profile/15194053010781883709</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
